Com direito a zoom

– Se me trouxer a melhor matéria do dia, a vaga é sua, Márcia. O futuro chefe se ergueu com esforço da cadeira capenga para conduzi-la ao desconhecido. No caminho, Setúbal surrupiou da mesa da secretária um bloquinho e uma caneta bic para a foca usar no teste.

A repórter Márcia Gomes não conhecia a cidade. Chegou lá pelos trâmites invisíveis dos fatos não publicados. Mandou um currículo a um amigo, que encaminhou a um conhecido, que o remeteu, se não foi ele foi o seguinte, a outro alguém chamado Setúbal. E lá estava ela, em Eça, no exato ponto em que se cruzavam coisa alguma com o nada, no coração do estado.

Garoava. Olhou para dentro da recepção do jornal e resolveu se prevenir levando a edição do dia. Avançava já pela terceira quadra sentido centro, quando uma das telefonistas veio esbaforida atrás dela:

– Espera! O Cleiber vai com você. O Setúbal não falou?

Cleiber é o fotógrafo novo. Foi escalado para acompanhar a menina por acaso. O combinado era que Wendel acompanharia os candidatos, mas como Cleibão se atrasou de novo, perdeu a vez no bonde que ronda os depês.

Esperaram enquanto a garoa apertava, as duas sob um toldo de uma padaria há muito falida, o fotógrafo chegar com o carro.

– Qual é a pauta, moça? Vamo pra onde?

– Não tenho a menor ideia. Não conheço nada aqui e o Setúbal me mandou só voltar com a manchete. Vamos dar umas voltas por aí, você me conta qual é a da cidade e daí eu penso no que fazer.

Ele engoliu a raiva. Culpa dele mesmo chegar atrasado e ficar de motorista de uma dondoquinha. Podia estar lá no depê de Itatiba fazendo o registro do parricida da foice, o editorial de moda rodeio cheio de modeletes gostosas, ou no bem-bom de alguma inauguração da prefeitura… Todo mundo já pautado e ele ali queimando pneu por nada.

No terceiro solavanco, Márcia quase bateu a cabeça contra o vidro, podia ter se arrebentado toda… A pauta surgiu num estalo: escrever sobre as más condições de atendimento do hospital local. “Foi a capa de segunda, moça”, respondeu ele. Ela sugeriu que fossem à câmara municipal acompanhar a sessão e revelar ao leitor o pouco caso dos políticos com o trabalho, já que o jornal dizia que a pauta estava trancada há semanas, sem que nada fosse votado. “Esse gancho a gente deu na quinta, que foi o dia da sessão. Os caras batiam ponto e vazavam”.  Os bueiros entupidos vomitavam água. A enxurrada invadia as pistas da avenida Rio Branco, a principal da cidade, e prometiam um alagamento e tanto. Seria uma solução digna.  “Deixa isso pra lá. Marcela, seu nome, né? Desculpe, Márcia – não vou esquecer de novo. Com o secretário de obras não se mexe, ele é casado com a filha do Seu Urso, dono do jornal”.

Um mendigo fazia o dinheiro da pinga vendendo guarda-chuvas no calçadão. Podia valer um bom perfil. Era tão bom que rendeu isso mesmo há mais ou menos um mês, quando o Manéu Seco chegou à cidade, com a carrocinha cheia de mercadoria. Foi matéria da Anne Caiena, cortou o fotógrafo, os jornais da capital até compraram a reportagem dela.

As roupas secando no corpo junto com as ideias e ela que não parava de tremer. No bolso só o dinheiro contado para a passagem de volta. Jurou pra dona Zita que ia devolver a grana emprestada pra viagem à noite mesmo, junto com a notícia do emprego novo. Dois anos já naquela loucura de escrever um artigo pra um, uma matéria quilométrica pra revista dos lustres de papel ecológico, descolar um bico em assessoria pra ficar ligando pra mundo e meio pra emplacar foto da rasteirinha da Ana Maria Braga. Não era ela que se orgulhava de nunca ter perdido uma pauta? De conseguir dar furo até em matéria de papinha de nenê?

A chuva apertou tanto que já quase escurecia. Cinco horas já. Tinha até às seis pra entregar o texto. O córrego Dom Ladrão transbordou. Uma ilha se formava no canteiro central da avenida Rio Branco. Dois motoristas abandonaram os carros e se refugiaram ali da força das águas. O vento quase dobrava as palmeiras e os cachorros se encolhiam sob as árvores de sombra. Molhados os cães até por dentro.

Pois ela ia denunciar aquele descalabro de um jeito ou de outro. E ia ter a manchete e o emprego e o dinheiro da dona Zita e um apartamento só dela para morar de novo.

– Se prepara pra fazer a foto que eu vou lá!

E desceu com água pelos joelhos, quase sendo abatida pela correnteza. O fotógrafo não entendeu, mas armou o zoom da câmera, pôs foco na doida e se aboletou na janela do gol. Márcia pisou bamba na ilha, sacudiu o cabelo, escolheu um cachorro barbudo, meio velho, e tascou os dentes nele até garantir a melhor foto pra capa.

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Sobre Aline Viana

Aline Viana nasceu em São Paulo, em 1981, mas prefere que não espalhem a que safra pertence. É formada em jornalismo. Cansada de tanto quem, o quê, quando, onde, como e porque resolveu entrar em um curso de crônicas. Foi um santo remédio para recuperar a saúde de seus textos. Se o diagnóstico está correto, você pode checar nos blogs: cronicasdas12.blogspot.com e semanalmente no vidasetechaves.wordpress.com . Novos pareceres são sempre bem-vindos.

  1. Lembrou “aqueles” antigos contos policiais!!
    Muito bom !!! Obrigado!!!

  2. É, e o que não se faz por um emprego, não é?
    Mandou bem, Aline!

  3. O desespero é o alimento da criatividade. Boa Márcia! Aline, delícia de texto!

  4. Aline

    Dei boas risadas… Qq semelhança com a realidade não será mera coincidência! Parabéns!!!

  5. Boa, Aline! Simplesmente não tinha ideia de como esta história iria terminar.

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