Temporada de caça

Imagem: Teo Adorno

O solo pedregoso, depois pantanoso, depois coberto por um tapete de folhas secas.

Mais além, o mistério das raízes.

Você apóia os cotovelos no parapeito da janela e observa a floresta a cem metros de distância.

A chuva já passou, ficou somente o vento.

A cidade ocupou o mundo todo, menos essa pequena reserva vegetal.

Lá embaixo, a teia de cipós, as árvores vergadas, todos os últimos verdes do planeta.

Você acende um cigarro e observa preguiçosamente o torvelinho intermitente da clorofila. Os detalhes de um desenho retorcido, quase abstrato.

Movimento na fímbria da floresta.

Um saci disfarçado de fumaça afasta os galhos, salta e invade sua boca.

Um saci, através do cigarro que você está sugando. O fugitivo espírito-fumaça do último saci, agora dentro de você.

A campainha toca. Teus amigos chegaram.

Você abre a porta e a algazarra começa. Eles trouxeram a cerveja e os baseados.

Música. Conversa fiada. Risadas.

Você finalmente diz, encontrei um saci rondando o prédio. Teus amigos fazem cara de interrogação. Um deles pergunta o que é um saci.

Uma criaturinha da floresta. Um demônio pequeno e triste.

Um demônio, onde?

Não importa. Como vocês se sentiriam se uma civilização implacável chegasse e devastasse nossa cidade, exterminasse todo mundo?

Você viu mesmo esse demônio? Falou com ele?

Nós conversamos. O saci apareceu na minha frente e disse que ele era o último, que todos os outros estavam mortos. Ele olhou fundo nos meus olhos e disse, agora eu quero vingança. Ele chegou bem perto e disse, quero suas meias e seus sapatos. Eu entreguei as meias e os sapatos e ele ordenou, passa pra cá a cueca, a camisa e a calça. Eu entreguei e ele mandou, agora venha comigo e veja o que vai acontecer. O saci entrou no apartamento e agora está aqui.

Um amigo muito bêbado e chapado diz, não estou vendo nenhum saci aqui.

Você pega uma faca de cima da mesa e a chacina começa.

Luiz Bras nasceu em 1968, em Cobra Norato, MS. Sempre morou no terceiro planeta do sistema solar. É de leão e, no horóscopo chinês, cavalo. Na infância ouvia vozes misteriosas que lhe contavam histórias secretas. Adora filmes de animação, histórias em quadrinhos e gatos. Com os felinos aprendeu a acreditar em telepatia e universos paralelos.

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  1. Grande Luiz!!
    Insinuante, curioso e surpreendente!

  2. Adoro histórias com Saci! E o final com a chacina fez bem a linha da Suzana (a bibliotecária assassina) Lembram? Até me deu saudades dela. Valeu sua participação em nosso espaço Luiz.

  3. Aline Viana

    Uau! E eu que nunca pensei que saci fosse entidade pra meter tanto medo!
    Adorei Luiz! Super obrigada mesmo por ter aceito participar do nosso coletivo 😉

    Um abraço,
    Aline

  4. Queridos, quem agradece pelo convite sou eu.

    Esse miniconto pertence a uma série intitulada “Pequena coleção de grandes horrores”, a sair no ano que vem. A ideia é deixar um pouco de lado o vampiro, o mago, o zumbi e outros seres da cultura anglófona e investir mais no rico folclore nacional. Porém sem infantilizar.

    Um abraço.

  5. Pingback: Mais dois pequenos grandes horrores «

  6. O ritmo crescente, o cenário se atualiza, um final forte. Que belo tratamento ao folclore nacional, Nelson.

  7. Que delícia de texto, Luiz. O clamor da selva que se esvai. Abração e parabéns ao Coletivo!

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