Arquivos da categoria: Marcia Barbieri

O enterro do lobo branco

  Haverá um tempo em que penetrarei nas bifurcações esquizofrênicas do seu crânio você não soltará nenhum gemido não implodirá nenhum coágulo respirará devagar e suas mãos contarão a pulsação cardíaca do universo e seus pés inchados se apoiarão na

O enterro do lobo branco

  Haverá um tempo em que penetrarei nas bifurcações esquizofrênicas do seu crânio você não soltará nenhum gemido não implodirá nenhum coágulo respirará devagar e suas mãos contarão a pulsação cardíaca do universo e seus pés inchados se apoiarão na

Quando os maracujás florirem

Meu caro, não, meu querido, não, meu companheiro, não, melhor poupar designações, tudo que nomeio me compromete e não diz nada, talvez por isso as letras me interessem tanto, sim, pela sua incrível ineficácia. Melhor eu começar assim, escrevendo assim,

Quando os maracujás florirem

Meu caro, não, meu querido, não, meu companheiro, não, melhor poupar designações, tudo que nomeio me compromete e não diz nada, talvez por isso as letras me interessem tanto, sim, pela sua incrível ineficácia. Melhor eu começar assim, escrevendo assim,

Amor Fati

Conheci o músico e de sua boca saíram notas dissonantes Conheci o carpinteiro e de suas mãos saíram corpos desarticulados de madeira Conheci o poeta e ele sussurrou sobre as ruínas dos jardins suspensos   Todos os homens que conheci

Amor Fati

Conheci o músico e de sua boca saíram notas dissonantes Conheci o carpinteiro e de suas mãos saíram corpos desarticulados de madeira Conheci o poeta e ele sussurrou sobre as ruínas dos jardins suspensos   Todos os homens que conheci

A Puta

Me masturbo, brinco com o clitóris e na clareira branca enxergo a vagina inchada de Deus, linda reluzente no meio das pernas. Não me olhe com os cantos fingidos dos olhos – uma rocha se eleva na sua fronte –

A Puta

Me masturbo, brinco com o clitóris e na clareira branca enxergo a vagina inchada de Deus, linda reluzente no meio das pernas. Não me olhe com os cantos fingidos dos olhos – uma rocha se eleva na sua fronte –

Antes da ressurreição

Meu corpo adoece, expele fetos e multiplica as dores dos meus partos inexistentes, sobre a cama ainda há o sangue sagrado de Abel, e eu adormeço, embora nua e dispersa. Acordo e os cães não me esperam mais na porta,

Antes da ressurreição

Meu corpo adoece, expele fetos e multiplica as dores dos meus partos inexistentes, sobre a cama ainda há o sangue sagrado de Abel, e eu adormeço, embora nua e dispersa. Acordo e os cães não me esperam mais na porta,

A ilha do dia anterior

Havia um barulho de moedas despencando na noite e o bater de asas desarmônico das moscas o azul terno das moscas moribundas. Pareciam sinos entoando tristes melodias e eu pensava em partir, ouvindo o apito urgente dos navios, embora não

A ilha do dia anterior

Havia um barulho de moedas despencando na noite e o bater de asas desarmônico das moscas o azul terno das moscas moribundas. Pareciam sinos entoando tristes melodias e eu pensava em partir, ouvindo o apito urgente dos navios, embora não

Manhãs em migalhas

Só por hoje Rasgarei meu peito E arrancarei flores de vidro, pássaros de origami e velhas mágoas Picaretas dançam entre minhas vértebras E eu toco calma a flauta de MAIAKÓVSKI Nunca acreditei que gangrenas devorariam meu corpo Pedaços de sorrisos

Manhãs em migalhas

Só por hoje Rasgarei meu peito E arrancarei flores de vidro, pássaros de origami e velhas mágoas Picaretas dançam entre minhas vértebras E eu toco calma a flauta de MAIAKÓVSKI Nunca acreditei que gangrenas devorariam meu corpo Pedaços de sorrisos

Manhãs em migalhas

Só por hoje Rasgarei meu peito E arrancarei flores de vidro, pássaros de origami e velhas mágoas Picaretas dançam entre minhas vértebras E eu toco calma a flauta de MAIAKÓVSKI Nunca acreditei que gangrenas devorariam meu corpo Pedaços de sorrisos

Manhãs em migalhas

Só por hoje Rasgarei meu peito E arrancarei flores de vidro, pássaros de origami e velhas mágoas Picaretas dançam entre minhas vértebras E eu toco calma a flauta de MAIAKÓVSKI Nunca acreditei que gangrenas devorariam meu corpo Pedaços de sorrisos

Catedral

Desfaço os nós cegos dos meus dedos,isso não me confere alegria ou dornem dissimula a tristeza que vazasolitária dos meus olhos Falsidades ideológicas,apesar dos meus heterônimos continuocavalgando sozinha no breu da noiteentre cabarés parisiensese anões de Toulouse-Lautrec.

Catedral

Desfaço os nós cegos dos meus dedos,isso não me confere alegria ou dornem dissimula a tristeza que vazasolitária dos meus olhos Falsidades ideológicas,apesar dos meus heterônimos continuocavalgando sozinha no breu da noiteentre cabarés parisiensese anões de Toulouse-Lautrec.

X

E devoram meus olhos pássaros voos moribundos E atormentam meu cérebro vitrais fístulas e arabescos E atormentam minha língua os antúrios que cuspi Desejos cadáveres podres fendas embrionárias – peles mortas Peixes sem cabeça boiando na fluidez do riso Renasci

X

E devoram meus olhos pássaros voos moribundos E atormentam meu cérebro vitrais fístulas e arabescos E atormentam minha língua os antúrios que cuspi Desejos cadáveres podres fendas embrionárias – peles mortas Peixes sem cabeça boiando na fluidez do riso Renasci

Morangos silvestres

Meus sonhos são casas em ruínas um Coliseu habitado por animais rastejantes homens de pedra-pome? Quanto mais me aproximo da velhice mais perto e palpável fica minha infância como se eu quisesse escalar o cordão umbilical que me expeliu, voltar

Morangos silvestres

Meus sonhos são casas em ruínas um Coliseu habitado por animais rastejantes homens de pedra-pome? Quanto mais me aproximo da velhice mais perto e palpável fica minha infância como se eu quisesse escalar o cordão umbilical que me expeliu, voltar

Côncavo

Cólera nos meus olhos pequenos de passarinho morto O pior chute é aquele que vem da inocência cortante das palavras (a ainda menina e sua vulva violentada entre as coxas) É preciso velar pelas bocas costuradas Gosto de pintar homens

Côncavo

Cólera nos meus olhos pequenos de passarinho morto O pior chute é aquele que vem da inocência cortante das palavras (a ainda menina e sua vulva violentada entre as coxas) É preciso velar pelas bocas costuradas Gosto de pintar homens

Cavalos mortos

“Não ponha o sol sobre vosso ressentimento” Ef 4, 26b – Fechei devagar minhas pálpebras caídas – inveja de todo peixe, e mais uma vez vi um campo fértil, embora solitário. Desde muito cedo aprendi a observar e em todas

Cavalos mortos

“Não ponha o sol sobre vosso ressentimento” Ef 4, 26b – Fechei devagar minhas pálpebras caídas – inveja de todo peixe, e mais uma vez vi um campo fértil, embora solitário. Desde muito cedo aprendi a observar e em todas

O jardim branco

“O homem é a semente da degradação” Olho para o céu e vejo Deus transformado em um pássaro negro e ele devora a carne verde que se forma em volta da minha carcaça e ele vai espalhando no músculo da

O jardim branco

“O homem é a semente da degradação” Olho para o céu e vejo Deus transformado em um pássaro negro e ele devora a carne verde que se forma em volta da minha carcaça e ele vai espalhando no músculo da

Cariátide

Continuo costurando, estou me tornando boa em disfarçar os pontos sob a pele branca. Embora a queloide se estenda por um dos meus braços e eles apenas dizem que sou geneticamente predisposta  a criar dobras sobre a pele. Depois da

Cariátide

Continuo costurando, estou me tornando boa em disfarçar os pontos sob a pele branca. Embora a queloide se estenda por um dos meus braços e eles apenas dizem que sou geneticamente predisposta  a criar dobras sobre a pele. Depois da

Gênese

Ela estava há milênios ajoelhada naquele cubículo e expunha com certa vaidade uma fratura no fêmur esquerdo. Brincava com uma Matrioshka. Tirava e recolocava as várias bonecas russas, enfiava o dedo no miolo, encontrava a menor de todas, rasgava com

Gênese

Ela estava há milênios ajoelhada naquele cubículo e expunha com certa vaidade uma fratura no fêmur esquerdo. Brincava com uma Matrioshka. Tirava e recolocava as várias bonecas russas, enfiava o dedo no miolo, encontrava a menor de todas, rasgava com