Quase uma ficção

Foto de Kenneth Arnold – 24 de Junho de 1947

Depois de dez anos, meu pai reapareceu em uma quinta.

Quase três da tarde.

Fingiu que não me reconhecia. “Quem é você?”

Minha mãe, um pouco. “Sua expressão não me é estranha?”

Minha irmã, com clareza. “Minha mais querida filha!!! Você cresceu!!!”

Minha mãe ficou chocada

Minha irmã emocionada

E eu tive que sair da sala para não gargalhar na cara do pilantra.

Passaram os dias e aquele embusteiro que se fazia de esquecido, foi lembrando.

A cada história, minha mãe foi ficando mais escandalizada. Minha irmã, amorosa e eu com vontade de furar os olhos daquele desgraçado!

Todo tempo jurou que não foi “comprarcocacomcascodepepsi” e nem “comprarcontinetalsemflitro

Para os parentes, contou que voltava de uma vigília de Santa Brígida quando foi surpreendido por uma luz vermelha. Que de um pontinho virou um pontão. Disse que era um tipo de disco voador.

Para os vizinhos, que a coisa pousou pertinho. Foi quando viu que era parecida com um ovo frito. De repente, a parte de baixo da coisa se abriu e meu pai tentou correr, mas foi pego por um raio verde que deixou as pernas duras e presas no chão. Aí ele viu um baixinho, que andava “dez para as duas” e tinha olhos grandes, cabeça pequena e orelhas de abano. Tipo dumbo! Contou, também, que agarrou o camaradinha pelas orelhas e deu uns tapas. O bicho grinchou e deu um chute no queixo de meu pai que o fez desmaiar.

Para o pessoal do bar, afirmou que quando acordou: estava nu e com outros dois dumbinhos passando um tipo de oleo. Refrescante e adstringente. O calhorda jurou que, apesar do medo, se sentia renovado.

Para um jornal de circulação nacional, assegurou que um terceiro baixinho trouxe uma gosma azul que enfiaram goela abaixo. Gosto de açaí com guaraná. Ficou zuretão! Ficou durão! Ficou entumecidão. Do meio de uma luz ambar saiu uma mulherzona, um guarda roupa duplex, peladona e com três vaginas. Duas delas embaixo dos braços. E aí ela fez a festa.

Na televisão, em uma sexta, depois da novela, meu pai relatou que quanto mais cansava, mais gosma engolia e mais comia as axilas da gigantona. Disse que sovacou pelo menos quatro bitelonas e dois baixinhos. Uma hora deram mais da gosma, que não firmou: relaxou. Meu pai desfaleceu e quando acordou estava perto da casa de minha mãe. Correu para lá e viu que se passaram dez anos.

Meu pai virou notícia.

Segurei a revolta.

Minha mãe ria alto e minha irmã agradecia a São Judas Tadeu.

Nunca falei nada, mas já tinha cansado de encontrar o pilantra em inferninhos ou dando ums voltas na cidade. Sempre se achando, sempre pondo banca. Teve vezes que me via e fingia que não me reconhecia.

Deixei quieto.

Muita lorotas.

Teve um dia de Natal que falei que ele era mentiroso. Contei tudo.  Meu pai com a maior “cara babada” disse: “Devia ser um robô-cópia!! Eles tinham isto , sabia?”

Deixei mais quieto ainda

Um dia: meu pai morreu.

Minha mãe desidratou de tanto chorar.

Minha irmã ficou muda.

Eu nem aí.

Enterro só na manhã seguinte.

Na tarde e um pouco da noite: aquele desfile.

“Bom homem!!” “Vai fazer falta!!” “Lamento muito!!” “Quem era ele?”

 

Cansadas, minha mãe e minha irmã, insistiram que eu ficasse velando o defuntão a noite toda.

Topei.

Eu e o meu pai

Noite quente.

Fiquei fumando na porta. Ora olhava para o caixão, ora olhava para o tempo.

O cheiro azedo do meu pai imundava o ar das minhas lembranças. Não chorei.

Talvez pelas duas da manhã, vi a galalau chegar. Fiquei com os meus pés colados do chão. (Seria o raio verde agora incolor?) Nem ligou para mim. Foi até perto do caixão e relinchou. Alto e dolorido de apertar o peito.

Depois entraram três galalus médias, parecidas com o minha irmã, e zurraram de cortar o coração.

No meio daquele banzé, aparecem os três dumbinhos que granaram de forma lancinante. Logo atrás vieram dois meio altinhos, orelha menores e muito parecidos com o meu primo César, que gorgolejaram de dar dó.

A lamentação foi triste!

No meio daquele desalento todo nasceu uma luz âmbar.

Intensa, me cegou e sumiu.

Sumiu com tudo: uma coroa com crisântemos azuis que o pessoal do bairro mandou, minha jaqueta jeans que ganhei da Christina, o livro de presença, os castiçais descascados, os meus documentos que estavam na jaqueta, um bêbado que deixei dormir atrás da mesinha do café, o livro que tinha emprestado da Emília, um quadro da santa ceia, um maço de cigarros fechado, um tule de nylon verde e o caixão com meu pai dentro.

Sobrou abrir um boletim de ocorrência dizendo que individuos inderterminados roubaram o meu pai.

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Sobre Plínio Camillo

Nasci em 26 de novembro de 1960. Aos três anos descobri que as letras tinham significados. Aos cinco, a interrogação. Aos nove, não era sintético. Aos 12, quis ser espacial. Aos 15, conquistei a exclamação. Aos 17 vi os morfemas. Aos 20 estava no palco. Aos 22 me vi como um advérbio. Aos 25 desenredei a Lingüística. Aos 27 redescobri as reticências. Aos 30, a juventude. Aos 35 recebi o maior presente: Beatriz Camillo, aquela que me trouxe a felicidade. Aos 40 desvendei uma ligeira maturidade. Aos 41 voltei para Sampa!!!. Aos 45, recebi o prazer de viver em companhia. Aos 50 anos, uso óculos até para atender telefone. Hoje: escrevo.

  1. Maravilha de texto Plinio! Parabéns!

  2. Conto pronto, trabalhado, repensado, redondo e na melhor tradição do conto fantástico. Perfeito para livro ou concurso.

  3. Gostei da levada e do desfecho final. Muito bom.

  4. Muito bom o texto Plínio, aplausos!!

  5. Plínio, só a metade do texto já dava um conto muito bom. O desfecho é sensacional. Parabéns!

  6. Belo texto, eu fiquei perplexo com o final!

  7. Aline Viana

    hahahaha Muito bom, Plínio!!!!!!! Adorei 😀
    Ótimos personagens e um desfecho surpreendente. Parabéns, mesmo!

  8. junior

    muito legal Plinio…valeu…

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