Memória Implacável

Fotografia de Vânia Kosta

Quem bate esquece; quem apanha, não. Mas eu não aceito. Como você não se lembra de mim? Você mal entrou na sala… está tão diferente, salto alto, cabelo preso, óculos. Óculos, você achava tão engraçado, mas agora eles te dão um ar sério, profissional, adequado a uma entrevista como essa. Você aparece assim mudada, mas não tive tempo de não te reconhecer, porque as lembranças me agarraram pela garganta e me sufocam. Qual foi seu primeiro colégio? Pergunto logo de saída, para provocar a tua memória. Se você se lembrar, eu te perdoo e saio do caminho. Você estranha um pouco, responde rápido e espera uma pergunta mais objetiva. Quero te ajudar, basta que se lembre. Será difícil? Pergunto pela sua primeira professora. Você tenta se desvencilhar, mas eu insisto. Meus colegas estranham, talvez eu esteja mal humorado. Peço que você comente mais, fale como era sua sala, seus colegas, se tinha muitos amigos… Mas você ainda não se lembra. O que mais tenho que perguntar? Se você se lembra do bilhete que te mandei? Aquele que você riu e mostrou para sua amiga. Claro que não lembraria, em uma semana acabaram os risinhos e voltei novamente a não existir. Mas eu exijo que você se lembre, por isso monopolizo a sua atenção. Faço perguntas técnicas, exploro sua insegurança. Tudo o que preciso é que você me encare e me reconheça. Mas você se recusa, se confunde, olha para o chão ou para as mãos que se apertam, nervosas. Olhe para mim quando eu falar com você — deixo escapar em voz alta. Meu colega à direita tenta amenizar, o clima está tenso demais. Faz um elogio e uma pergunta amistosa. Que você comente as experiências positivas no emprego anterior. Eu volto para a batalha e disparo: quais os seus três piores defeitos? Do seu chefe? Da empresa? A essa altura, já perdi minhas esperanças, e você perderá as suas. Por que foi dispensada? Só por isso? Tem certeza? Fale três coisas que seus colegas ou chefes costumavam reclamar sobre você. Não adianta, eu não queria te queimar, mas você não me deu outra escolha. Sei que você vai chorar ao sair da sala. Você mal está se segurando. E desta vez, mesmo sem saber meu nome, você vai se lembrar de mim. Porque quem apanha, meu amor, nunca esquece.

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Sobre Rogério Guimarães

Rogério Guimarães nasceu em Santo Antônio da Platina (PR). Gosta de desenhar e tocar violão. Vegetariano não praticante, curte esportes radicais como yoga e tai chi chuan.Busca inspiração para escrever em Pasárgada, Shambhala e na paisagem cosmopaulistana. Participou da antologia de contos Abigail, publicada pela Editora Terracota, e do ebook Geração em 140 Caracteres, editada pela Geração Editorial. Seus próximos livros serão lançados em 2012, se o mundo não acabar.

  1. Rapaz!!! Adoro a sua doce vingança!!
    Excelente texto!!!

    Parabéns!!!

  2. Aline Viana

    Que medo dessa pessoa! rsrsrs Será que já a encontrei por aí? 😛
    Mas talvez a moça não se lembre dela depois, pelo menos não por muito tempo. As entrevistas de emprego têm cada tipo sádico que será difícil esta se destacar considerando a concorrência.
    Bjs

  3. Uau! Rogério! Que memória! Mais que implacável, imperdoável! Meda!!!!!!!!! Ótimo demais!

  4. Hum… adorei esses momentos! Vivi com ele a angústia e com ela o desespero.
    Vivíssimo!

  5. Revanchista, esse cara. Ótimo conto.

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