As três irmãs – O fim

De tudo, o que mais sentia falta era o cheiro, o ar que rodeava a cada um deles, a cada passo, e que agora tinha esquecido por inteiro, perdera o gosto das coisas, mas nada pior que perder os cheiros, não lembrava se era doce pelos cuidados da mãe, se era amargo da sofridez do pai, se era azedo do rol rachado na cabeça. Não tinha mais nenhuma lembrança do calor dos peitos secos de leite, de vida, de poeira, secos de qualquer ambição por chamego, secos de qualquer dedicação a nem mesma à filha que grudava na perna feito mato verde. E que hoje não gruda mais em nada. Apenas na janela. Estática, pedra de memórias secas de terra. Viúva de amor amor próprio, nem mesmo decide por viver, entrega o destino a ele mesmo, sem questionar, como nunca questionou. O que tem para hoje está longe de ser a água da garoa fina, essa não vê há mais de mês. Hoje o que lhe sucede é a morte, nas a sua, mas a do mundo. O mundo que morre para ela jamais voltará, perdeu a razão porque perdeu sua maior espectadora. O mundo morre, mas ela fica, sozinha, sem nem mesmo lembrar o próprio nome.

blog

Anúncios

Sobre Bia Bernardi

Bia Bernardi é escritora e gosta de ler livros de temas diversos, adora música, pra dançar ou só ouvir, e gosta de estar com quem gosta.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: