Flagrante

Fotografia de Carla Souz

Fotografia de Carla Souza

 

 

 

De uma coisa eu tenho certeza: se um casal se separa, alguém tava pegando alguém por fora. É batata. Um homem não vai largar a mulher com quem escolheu se casar para ficar na mão. Com certeza, já fez o teste-drive com outra, e até pequenas viagens, então quando sai de casa já sabe muito bem em que garagem vai estacionar o seu veículo. Mas a mulher não fica atrás, só dispensa o marido quando já arrumou coisa melhor. Paquerou vitrines, levou peças para o provador, encontrou um modelo que veste bem, colocou na sacola e levou para casa. O substituto precisa estar na bolsa.

Então, quando ela começou a falar que se sentia sem espaço, e não tinha tempo para as coisas dela, meu alarme interno disparou. E quando disse que queria fazer uma oficina literária, luzes vermelhas intermitentes se juntaram às sirenes. Quem é que sai de casa de noite para ficar estudando rimas e metáforas? Se ainda fosse futebol, academia, enfim, qualquer coisa mais movimentada. E ainda disse para não me preocupar com o custo, porque o curso era gratuito. Nessa hora eu tive certeza. O que é que você faz de graça nesta cidade? História mal contada é sinal certo de mentira. Fingi que acreditei e não toquei mais no assunto, mas no dia da tal aula já amanheci com a testa cheia de ideias. No almoço, a salada veio temperada com cenas de traição. Tentei adoçar o café com planos de vingança, mas o amargo da dúvida me incomodava. No meio da tarde, já tinha decidido sair cedo do trabalho para conferir esta história.

Saiu sozinha e foi direto para o ponto de ônibus, eu seguindo à distância. Ela desceu perto de uma biblioteca, onde entrou. Não quis olhar dentro da sala, para não ser visto, mas constatei que o prédio não tinha nenhuma outra saída. Resolvi esperar lá fora, e ver com quem ela estava andando. Horas depois, ela saiu conversando com uma mulher um pouco mais velha. Tão próximas, tão animadas, e gesticulavam demais enquanto falavam. Conversavam sobre o amante, ou figuras de linguagem? Mas eu estava longe demais para ouvir, se soubesse ler os lábios… Caminharam juntas até o ponto, ela pegou o primeiro ônibus, a amiga ficou. Corri para o carro e fui para casa. Quando entrei, ela me perguntou, com a mesma expressão daquele dia em que cheguei exalando um perfume diferente:

— Onde você estava? Liguei no trabalho e disseram que você saiu mais cedo.

 

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Sobre Rogério Guimarães

Rogério Guimarães nasceu em Santo Antônio da Platina (PR). Gosta de desenhar e tocar violão. Vegetariano não praticante, curte esportes radicais como yoga e tai chi chuan.Busca inspiração para escrever em Pasárgada, Shambhala e na paisagem cosmopaulistana. Participou da antologia de contos Abigail, publicada pela Editora Terracota, e do ebook Geração em 140 Caracteres, editada pela Geração Editorial. Seus próximos livros serão lançados em 2012, se o mundo não acabar.

  1. Curti bastante seu blog 😉 você escreve bem, gostaria de te convidar para conhecer o meu, espero que goste também. Obrigado!

  2. Nossa, adorei! Mesmo. Logo na primeira linha você me cativou, fiquei com vontade de chegar até o fim. Achei o texto bem construído, o desfecho é muito bom!
    Agora me explique: Esse blog é colaborativo? Vocês são amigos que se juntaram para exercitar a escrita?

    Aproveito e os convido para conhecer o meu: http://www.literasutra.com

    Um abraço,
    Monalisa Marques

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