O prézinho não é nenhum jardim de infância

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A tia Jacira era em tudo diferente da tia Hermínia do Jardim II: não usava o cabelo crespo natural cortado curto, nem vestia calça jeans, também não tocava “Aquarela do Brasil” ao violão e tampouco nos deixava desenhar e pintar todo dia. Estávamos no prézinho e ela queria nos preparar para a outra escola, aquela para a qual deveríamos aprender a ler e escrever.

Seu jeito sério em tudo destoava do colorido da cartilha, mas casava com as paredes beges e nuas da sala nova e com a vista da janela para o lado vazio do parquinho.

Seguimos uma aceitando civilizadamente o infortúnio de ter a outra por companhia até quase o fim do ano. Num dia particularmente chato e nublado, terminei a lição antes de toda a turma. Ainda tentei me distrair olhando para os colegas e pela janela, mas nada acontecia em qualquer dos cenários.

E daí não deu outra: virei-me para conversar com a Laura, da carteira de trás, bem baixinho. Se era tão baixinho mesmo, não sei – minha mãe sempre reclamou do meu tom de voz alto – mas, era a intenção.

— VIRA PRA FRENTE E CALA A BOCA, ALINE!

Tomei um susto com o grito dela e senti as bochechas queimarem de vergonha e raiva diante de uma injustiça tamanha: eu já tinha acabado, o que ela queria que eu fizesse? Eu nem podia desenhar na cartilha! Quando vi, já estava devolvendo.

— A senhora não é minha mãe para me mandar calar a boca.

Para não deixar meu desrespeito impune, tia Jacira me pôs de castigo para pensar no canto da parede.

Sentindo-me a pior das vítimas nem por um segundo me arrependi do que disse à professora. E durante de todo tempo do castigo, tramei mil planos de vingança.

Quando minha mãe foi me buscar, fui chamada à diretoria para ser comunicada sobre minha inédita malcriação naqueles três anos na escolinha. Dona Lourdes, a diretora, queria que eu me desculpasse com a professora. Não sei o que mamãe disse a elas, mas comigo não foi além de uma repreensão pro forma, sem exigir desculpas. Naquela época, lembro de poucas vezes ter voltado tão satisfeita para casa.

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Sobre Aline Viana

Aline Viana nasceu em São Paulo, em 1981, mas prefere que não espalhem a que safra pertence. É formada em jornalismo. Cansada de tanto quem, o quê, quando, onde, como e porque resolveu entrar em um curso de crônicas. Foi um santo remédio para recuperar a saúde de seus textos. Se o diagnóstico está correto, você pode checar nos blogs: cronicasdas12.blogspot.com e semanalmente no vidasetechaves.wordpress.com . Novos pareceres são sempre bem-vindos.

  1. Aline, sua crônica me fez lembrar da primeira (e única) vez em que fiquei de castigo na escola. Eu estava no jardim (lá a gente ia direto do jardim para o pré-CA), também acabei meu dever antes de todo mundo e fiquei sem nada pra fazer. Também fui parar no canto da parede.
    De onde vem toda essa necessidade de nos educar para ficarmos calados, hein? Curioso.

    Um abraço,
    Monalisa Marques
    http://www.literasutra.com

    • Aline Viana

      Então, Monalisa, tive um professor que diz que esse método de ensino visa incutir em nós, desde cedo, que precisamos ser castrados em nossos desejos mais naturais e primitivos, pela escola para que possamos aprender a viver contidos em sociedade. Mas, ainda que esse seja o preço do pacto social, é impossível não achar que é triste demais a forma como ele é transmitido às novas gerações.

      Um abraço,
      Aline

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