O fim

Jonas não tinha nenhum amigo. Só podia ser.  Que outra explicação havia para o fato de ele não saber os truques mais básicos para dar um pé na bunda de alguém?

Estava diante do juiz e precisava explicar tamanha ignorância. Não sabia o truque de dispensar a dama na plataforma da estação de trem ou metrô, nem aquele do jantar romântico, quando, em vez de um anel, a ex-amada receberia de volta sua disponibilidade.

Conheceram-se em Portugal quando Jonas visitava os avós. A avó Clarissa, cansada de ver o neto brasileiro ensimesmado em meio à parentada toda de tios e primos já idosos, o apresentou à filha da vizinha,Isabel. Menina doce, prendada e de muito gosto nos estudos.

Quem melhor que uma avó para saber o que agradava a um neto?

Passearam várias vezes antes que ela o beijasse. Ela, contava rindo, que cansou de esperar que ele preenchesse aquele vácuo que indicava a hora certa. E era verdade. Ele sempre ficava com medo de estar enganado e a menina rejeitá-lo bem na hora. Isabel era toda coragem, beijou e pronto. Ele retribuiu e deu tudo certo.

Por tudo isso, Jonas a pediu em casamento antes de voltar ao Rio. Viveriam no Brasil, os pais dele concordaram em ceder a edícula para a primeira residência do casal, ele logo passaria em algum concurso e seriam felizes.

Isabel veio passar o Natal com o noivo. Quem visse, diria que ela e a sogra eram as melhores amigas.

Quando um cá e o outro lá, conversavam diariamente pela internet. Até que um dia ele chegou tarde demais do curso de inglês pra se conectar, em outro estava muito cansado devido ao treino na academia e o sentimento foi espaçando. Preenchido pela coragem de outras moças, cariocas, baianas e mesmo gringas que ele via na praia.  Jurar fidelidade assim era duro. E casar pra quê se ainda havia tanta mulher pra conhecer?

― Foi então que você pediu ao seu pai para ligar e dizer à vítima que você havia se matado?

Jonas acenou em confirmação ao juiz.

― Por que não avisou logo a moça? Um e-mail bastava! E ela em Portugal a comprar vestido, imprimir convites!

Mas aquele juiz parecia que não conhecia a Isabel. Ela ligou desabalada para a futura sogra cobrando explicações: por que não avisaram que ele estava deprimido, por que não a chamaram a cá para reanimar o pobrezinho ou sequer para prestar as últimas homenagens? A sogra tão assombrada quanto a nora, só soube dizer a verdade e negar a trama toda: “achavam que tinham terminado”, foram as exatas palavras dela. E lá estava ele: enfrentando agora, diante da Justiça, a portuguesinha.

Ele, o juiz, a mãe e a portuguesa concordaram. Condenado.

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Sobre Aline Viana

Aline Viana nasceu em São Paulo, em 1981, mas prefere que não espalhem a que safra pertence. É formada em jornalismo. Cansada de tanto quem, o quê, quando, onde, como e porque resolveu entrar em um curso de crônicas. Foi um santo remédio para recuperar a saúde de seus textos. Se o diagnóstico está correto, você pode checar nos blogs: cronicasdas12.blogspot.com e semanalmente no vidasetechaves.wordpress.com . Novos pareceres são sempre bem-vindos.

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