Antes do Anoitecer

Eu me sentei à mesa 22 do Café M, a única que ficava na calçada. Tarde fria de uma segunda-feira gelada. Pedi um chocolate quente.

Uma moça chegou pedalando a sua bicicleta. Estacionou o veículo de duas rodas bem à minha frente e atravessou a rua. Entrou em uma lavanderia, saiu minutos depois usando roupas iguais às minhas e foi embora bicicletando com as cores que eu gostava. Que moça mais ousada!  Continuei saboreando a minha bebida. Enquanto a xícara esvaziava, a minha cabeça esquentava.

No dia seguinte, voltei ao Café M. A moça retornou com as roupas que eu tão bem conhecia, estacionou a bicicleta no mesmo lugar, atravessou a rua e de novo entrou na lavanderia. Meia hora depois, saiu usando um novo corte de cabelo, com cor e penteado iguais aos meus. Subiu na bicicleta e partiu. Minha cabeça começou a ferver.

Na quarta-feira, fui ao Café M mais cedo. Eu só pensava em ver a moça outra vez. Ela chegou no horário de sempre usando as minhas roupas e os meus cabelos. Estacionou a bicicleta, atravessou a rua e mais uma vez entrou na lavanderia.  Por um longo tempo não retornou. Comecei a ficar nervosa. O que teria acontecido? A moça teria fugido? Duas horas depois ela surgiu, desta vez com o corpo igualzinho ao meu. Não se lembrou da bicicleta e foi embora com os meus passos. Voltei para casa pedalando. Minha cabeça quis explodir.

Na quinta-feira, quando cheguei no Café M, a moça já estava lá com as minhas roupas, os meus cabelos e o meu corpo, sentada à mesa 22, tomando um chocolate quente. Fiquei sem saber o que fazer. Ajeitei a bicicleta no lugar acostumado, atravessei a rua e experimentei seguir até a lavanderia. Assim que entrei, a atendente me entregou uma sacola e disse que o serviço já havia sido pago. Eram as velhas roupas da moça, aquelas que ela estava usando na primeira vez em que eu a vi, agora perfumadas e muito bem passadas. Troquei de roupa no banheiro da própria lavanderia. Quando saí, a mesa 22 estava vazia.  Voltei para casa pedalando a conhecida bicicleta e usando roupas macias.  Minha cabeça começou a ficar fria.

Na sexta-feira eu decidi encarar a moça. Quem era ela, afinal? Uma boa conversa a faria abandonar a ideia de copiar a minha identidade.  Quando cheguei no Café M, larguei a bicicleta na calçada e me sentei à mesa 22 onde a minha cópia já estava.

Surpresa. Ela tinha apenas um olho. Espanto!

Um buraco em sua face me assustava. Estranho espaço vazio. Medo. Eu estava cara a cara com a minha imagem parcialmente cega. Meu coração disparou. Estarreci. Quase caí. Pedi ao garçom que me trouxesse uma faca pontuda. Ajeitei a faca com a maior coragem de minhas mãos, arranquei o meu olho esquerdo e o coloquei na face da moça.

Cruzei o olhar com o meu ser duplo, a moça-eu à minha frente. Minha visão desamparada se uniu à dela e nós nos enxergamos juntas.

Ela pegou a faca, arrancou de si o olho que eu havia lhe dado, estendeu a mão e me ofereceu de volta a minha visão. Eu aceitei o presente e coloquei o olho pródigo de novo em mim.

Ela pegou a bicicleta jogada na calçada e foi embora pedalando de um jeito esquisito.  À medida em que se afastava, suas roupas, seu cabelo e seu corpo começaram a se transformar. Eu voltei para casa andando, com uma calma pouco peculiar.

No sábado, não fiz nada.

No domingo, passei pelo Café M e não me sentei à mesa 22. Continuei caminhando com o meu olho recuperado. Queria mostrar a ele como a rua continuava, os lugares ainda desconhecidos, os pontos esquecidos, tudo o que havia onde a vida não mais adormecia. Mas persistia, esperançava e luzia. Antes do anoitecer.

Silvia Camossa é autora dos livros “História das Ideias do Zé”, “Escolhas que Brilham”, “Sonha, Zé” e “Os amigos do balacobaco”, infantojuvenis publicados pela Callis Editora. É também atriz e está exercitando a criação de suas primeiras canções.

Anúncios
%d blogueiros gostam disto: