“As três irmãs” – Brancura de sol

Quando crescesse, ia querer ser moça letrada, sabia das leituras, como a avó tinha sido, sempre cheia de papéis, pessoas importantes ao redor e tudo mais que ela tinha visto na única vez que pôde estar perto da avó publicamente: era tanta gente – e gente bonita!, bem apessoada, de chapéus de pena, gravatas e saias compridas, rendas e sedas -, muita comida e sempre muito papel. Gosta mesmo era daquela brancura, de doer a vista, como quando olhava pro sol por uns segundos e fechava os olhos, tudo esbranquiçava! Porque é do que lembra: de muito sol na sua vida de criança, tanto que fez dele seu maior passatempo, seu passatempo mais seu, a brincadeira que brincava em segredo pra brincar sozinha. Ela, quando fechava os olhos não via escuridão, via manchas pretas no branco que banhava seu olhar e nele achava bichos, arvores, formas esquisitas que sempre transformava logo em alguma coisa. Igual as irmãs faziam com as nuvens, mas que só via com seus próprios olhos e assim conseguia ganhar uma vez e as duas não zombavam. O pai é que não entendia, mas achava graça da filha, que volta e meia, de cabeça esturricada de tão erguida, apertava os olhinhos e gargalhava sozinha. Era assim que os dois se realizavam.

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Sobre Bia Bernardi

Bia Bernardi é escritora e gosta de ler livros de temas diversos, adora música, pra dançar ou só ouvir, e gosta de estar com quem gosta.

Um Comentário

  1. Aline Viana

    O texto evoca sensações de liberdade e alegria com grande intensidade. Gostei 😀

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