Entre o quem nunca e o alguém já

“Você também pode comprar iogurte pronto, sabia?”, perguntou o meu namorado outro dia. Sim, eu passava por mais um surto de cozinheira amadora. Quem nunca? Ok, ok, alguém já?

Senão é só porque você ainda não sabe como as coisas mudaram desde o velho caderninho de receitas das avós. Agora tem canais inteiros de TV dedicados às palmirinhas 2.0! E tem outras no Youtube, pra não falar daquelas do Instagram. Foi assim que saiu a receita do meu primeiro risoto, pelo qual me apaixonei assim que bati os olhos na foto. Sim, uma mistura mágica de ervilha preparada na panela de pressão! Pois, menina, aquilo é bom (e pode preencher com vários “O”s a palavra). E o frango com geleia de tangerina, que curou meu trauma de frango assado?

É difícil imaginar que alguém se traumatize com um prato tão corriqueiro, mas é que o tal frango assado é a estrela do cardápio colesterol zero da minha mãe. O motivo é a, digamos, sinergia entre praticidade e sabor. Agora, pensem: ter uma versão light do galeto de padaria duas a três vezes por semana nas refeições.

No fundo não era o frango, entende? Era a repetição … O meu coração não aguentou.  Tive que sabotar a ave: comecei a pegar menos pedaços, a fazer cara de tristeza ao vê-la no forno, a propor molhos diferentes, até que passei ao boicote aberto e pedi um ovo frito.  E lá foi a minha mãe, mortificada, tratar de incrementar o caderninho de receitas dela pra rechear a minha marmita.

Sim, marmita; porque fazer omelete à francesa pode ser uma arte dominada por poucos, mas fazê-la suportar a condição de uma marmita é que eu quero ver. E o frango assado, embora cumprisse com certo louvor o desafio, já tinha gasto minha cota de boa vontade.

Nesse meio tempo, o inconsciente, talvez no subterrâneo do meu estômago, começou a fermentar seus planos de insurreição. “Quando mamãe sair, vocês vão ver o que eu vou cozinhar! Salmão, legumes no vapor, sopa cremosa de fubá, hahaha!”

O primeiro sinal de que eu iria me descontrolar foi quando comecei a cozinhar longe das vistas da minha mãe. Fracassos retumbantes como o pão de cenoura embatumado jamais chegaram ao conhecimento materno. Bastava ela colocar as malas no ônibus, pra eu, como quem não quer nadar, ir espiar os livros de receitas e a dispensa. Patológico.

Foi só ter a minha própria cozinha que a coisa saiu do controle. Quibe assado? Já fiz, duas receitas diferentes até. Petit gateau? Moleza, aliás, só dentro. Água saborizada? Melhor que chá gelado. Segunda sem carne? Opa, é nóis.  Amélia? A preguiça diante da pia cheia prova que não.

Numa mente com potencial pra loucura, qualquer faísca incendeia. Vale a falta de dinheiro, dieta nova, namorado pedindo marmita (Nietzsche e seu “eterno retorno”), tanto faz e a pessoa vasculha a internet, desce os livros da avó da prateleira, liga pras tias até achar “a receita”. No caso, de iogurte, que eu passei a consumir diariamente.  Na ponta do lápis: cada potinho custa R$ 1,99, isso vezes sete dá R$ 13,93; então, R$ 1,99 do iogurte mais R$ 2,99 do litro de leite e, voilá, iogurte pra semana inteira por R$ 4,98! E de brinde, se tudo der certo, uma satisfação que alimenta o ego.

As horas da noite passaram e o iogurte não virou. O leite não virou. Iogurte. Vocês entenderam. Tudo foi disposto ralo abaixo. Mas não sou dessas que desistem: agora, é sentar e  adotar rigor quase científico ao comparar receitas em livros novos e antigos, em blogs e no youtube; colher depoimentos de outras cozinheiras; buscar os ingredientes certos (lactobacilos vivos nascem do Yakult, é isso? Eles são orgânicos ou o quê?); conferir os equipamentos necessários (tigela, liquidificador, colher, precisa de mais alguma coisa?) e aí sim… Comprar pronto? Sério? Você não sabe nada.

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Sobre Aline Viana

Aline Viana nasceu em São Paulo, em 1981, mas prefere que não espalhem a que safra pertence. É formada em jornalismo. Cansada de tanto quem, o quê, quando, onde, como e porque resolveu entrar em um curso de crônicas. Foi um santo remédio para recuperar a saúde de seus textos. Se o diagnóstico está correto, você pode checar nos blogs: cronicasdas12.blogspot.com e semanalmente no vidasetechaves.wordpress.com . Novos pareceres são sempre bem-vindos.

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