O guardião

 

O portãozinho de ferro que guardava a entrada do sobrado acreditava que cumpria bem o seu papel de guardar o casal e a criança. Era um ser curioso aquele portão por ser um tipo que pensava pequeno, sabe? Achava que suas atribuições estariam cumpridas se ficasse de olho no quintal da frente e na varanda, uma vez que havia quem desse prosseguimento à sua missão: uma porta também de ferro, mas pintada de forma a parecer de madeira. Aquele portãozinho já tinha visto muito em termos de moda arquitetônica em casa e na vizinhança para corroer-se por tão pouco.

Porta adentro, a coisa era diferente. Olívia agastava-se. Pela menina, pela missão, pelo “marido” e até pelos estudos,nos quais ela não conseguia concentrar-se.

A mente da mulher constantemente subia as escadas. E uma vez no andar de cima, metia-se na biblioteca. Começava a percorrer as prateleiras, já conhecendo de cor onde estavam seus preferidos: “Dias de paz em Clichy”, de Henry Miller, “Dez histórias imorais”, de Aguinaldo Silva”, “Lolita”, de Nabokov, “Capitães da areia”, de Jorge Amado, e “Nosso homem em Havana”, de Graham Greene. O olhar perdido através da vidraça da cozinha visualizava as páginas com os trechos favoritos.

Edições ordinárias, primeiras edições ou raridades estavam todas misturadas e camufladas sob capas de couro azul ou vermelho. O título em dourado discreto nas lombadas ajudava a compor a aparência de uma biblioteca de respeito.

“Nunca vi tanta indecência junta”, diria um homem um tanto quanto ignorante, o detetive Jatobá, a respeito daquele acervo em algum lugar do futuro próximo. Havia tantos livros banidos pelo governo que ele nem sabia por onde começar o levantamento. “Como uma criança poderia crescer com uma cabeça saudável num ambiente desses?” – o mesmo homem se perguntaria pouco depois.

O público atendido por Olívia e Padilha, os dois subversivos que geriam in loco aquele esquema, era composto de pessoas que a sociedade definia como “de bem”: tinha de médico a dona de casa, de estudante a juiz de direito, com tudo que houvesse no meio. Essa gente que absorvia os benefícios do governo em primeira mão, em silêncio, estimulava a derrocada do País, que vinha sendo reconstruído a duras penas sob o ataque incansável de comunistas de toda ordem.

O cuidado dos meliantes era tanto que não havia qualquer registro dos clientes, embora muita coisa fosse despachada pelos Correios e houvesse até um sistema de entrega à domicílio. A maioria preferia comparecer pessoalmente ao discreto sobrado no Valongo e escolher com toda calma qual obra ilegal degustaria no conforto de seu lar. Novos fregueses só eram admitidos por meio da indicação de consumidores antigos.

Não havia área do conhecimento proibido que não estivesse representada naquela sala. Eva continua a ser culpada pelo consumo daquela maçã, embora até hoje haja aqueles que prefiram jogar o ônus da perda do paraíso na serpente. Mas um terceiro elemento não devia ser descartado. “Se não proibissem, capaz que quase ninguém fosse atrás de ler essa merda toda. A gente mal consegue tempo de ler o jornal”, raciocinou Jatobá diante das paredes tomadas por livros.

 

***

Olívia sabia que era questão de tempo ser descoberta e acabar morta num porão dos militares.

Os livros também tinham uma missão a cumprir.

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Sobre Aline Viana

Aline Viana nasceu em São Paulo, em 1981, mas prefere que não espalhem a que safra pertence. É formada em jornalismo. Cansada de tanto quem, o quê, quando, onde, como e porque resolveu entrar em um curso de crônicas. Foi um santo remédio para recuperar a saúde de seus textos. Se o diagnóstico está correto, você pode checar nos blogs: cronicasdas12.blogspot.com e semanalmente no vidasetechaves.wordpress.com . Novos pareceres são sempre bem-vindos.

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