Lindinha

Lindinha   Ai! No frio tudo fica mais dolorido. Esta casa é frienta demais, hômi! Bati a unha na penteadeira, doeu até na alma. Preciso tampar aqueles buracos entre a parede e o telhado. É por ali que a friagem entra. Amanhã compro as luvas, na Feirinha, pra esquentar os dedos. Vi um modelo com os desenhos que ela gosta, vou trazer pra…

– Estou indo embora, Jorge.

­­– O quê?

– Não vou morar mais aqui. Estou indo.

– Para com isso, menina. Onde você vai morar?

– Meu patrão alugou uma casa pra mim perto da padaria.

Ela não pode me abandonar numa manhã frienta de domingo. Não vou deixar.

– E quando a sua mãe, o seu pai souberem? É melhor ficar aqui. Você veio pra cá comigo… Só sai com autorização deles.

– Eles já sabem. Eu liguei.

– Já sabem? E o que disseram?

– Que era pra eu fazer o melhor pra mim.

No frio a minha fé congela.

– Tchau, Jorge.

Não chegou a morar nem um ano comigo. Tinha quinze anos, era mais sequinha ainda, corpo de menina, quando me pediu pra levar pra São Paulo. Eu passava uns dias em minha cidade, no interior do Piauí. Seus pais incentivaram. Vieram falar comigo. Depois, num canto, fiz um trato com ela, disse que levava, até pagava a sua passagem, mas ela tinha de viver em São Paulo como minha mulher.

– Tá bom. Só não vou beijar na sua boca.

Tudo nos conformes. Experimentei ela logo lá. Mas chegou aqui na vila reclamando:

– Pensei que tu morasse num apartamento bonito.

Foi traída pela sua imaginação. Eu nunca disse que tinha o que não tenho. Coisa que não gosto é de me amostrar. Ela ficava em casa. Eu ia pro Brás, trabalhar na Feirinha, na volta tinha um bocado de nóia aqui na porta. Mas bastava pegar Lindinha, minha peixeira, pra que todos sumissem.  Até achei bom a mulher, que mora na esquina, vir falar da vaga de balconista numa padaria. Só era longe, lá pra zona Sul. Ensinei como chegar, deixei o dinheiro da condução. Começou a trabalhar, logo mudou.

A moça, que dormia comigo, de uns meses pra cá do meu ronco começou a reclamar. Quando eu chego ela vai pro quartinho. Diz que tá com sono, que acorda muito cedo… Não se troca mais na minha frente. Nem me deixa mais ver tomar banho – gosto tanto de ver a menininha dela ensaboada. Já faz um tempão que a danada não me dá. Fiz empréstimo com agiota. Gastei o dinheiro que não tinha pra arrumar meus dentes. Não adiantou. Ela nunca me beijou. Mas disso não posso reclamar. Fui bem avisado.

Antes dos vizinhos me alertarem eu tinha visto. O carro importado, no final da tarde, deixa a menina na entrada da viela. É o mesmo carro que ela agora vai entrar. Desgramenta! Não foi pra isto que te trouxe. Cadê? Deixa eu pegar. Venha cá, Lindinha, você tá arisca, com vontade de cortar. Não sente frio, não, é? Vou rasgar o bucho dela e desse patrão, cabra da peste. Quero ver as tripas deles misturadas com sangue pelo chão… Mas não hoje. Tá frio demais, hômi! Aqui parece o Alasca. É ruim pra aprumar o cabo da peixeira na mão. O jornal disse que na terça a frente fria vai embora. Preciso tampar aqueles buracos entre a parede e o telhado. É por ali que a friagem entra. Amanhã compro minhas luvas. Pra ela não vou comprar mais, não. Pode esperar a sua hora, sua ingrata, vai chegar.

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Sobre Gláuber Soares

Gláuber Soares mora em São Paulo. Formou-se em Jornalismo, mas o seu maior erro foi comprar um All Star de cano alto e cor roxa pensando levar azul-marinho. Skatista calhorda, nos finais de semana é possível encontrá-lo no litoral sul, ao pé da serra do Mar, numa casinha verde, próxima do Rio Negro, à procura dos tons que não enxerga. Participou das coletâneas de contos: Abigail (2011), Dos Medos o Menor (2012) e A Arte de Enganar o Google (2013) – todas pela Terracota Editora. Em 2014, também pela Terracota, lança sua coletânea de contos Remédio Forte. Também bloga em glaubti.wordpress.com E-mail: glaubersoares@terra.com.br

  1. Ah cabra danado de bão! Ocê que iscrivinha e ele que afia a Lindinha! Show Gláuber!

  2. Sejamos bem avisados; Glauber é porreta!!! Valeu!!

  3. Sheila Boesel

    Adorei Glauber!!!

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