Déjà vu

Backlight Amy, fotografia de Jason Meredith

Backlight Amy, fotografia de Jason Meredith

Ele acordou com o peito quente e ardendo, o pulso acelerado. Era outro pesadelo, uma variação daquelas cenas de perseguição, em que todos na cidade se transformavam em zumbis, lobisomens ou vampiros, como nos melhores (ou piores, a depender do gosto) filmes de Hollywood, e ele tentava escapar com sua família, ou ao menos protegê-la. Como de costume, alguém do grupo era capturado, em geral um dos filhos, em seguida outro, até que sobrava apenas um, que ao final ele também era incapaz de salvar. Desta vez, era o nome da filha que chamou ao despertar. Acordava sempre gritando o nome de alguém, apavorado, até se dar conta de que toda a sua família já estava morta há mais de dez anos. Evitava acender a luz, para não encontrar o cômodo, pequeno e mobiliado com escassez, inexoravelmente vazio. A penumbra do quarto era a sua última defesa. Sem ela, defrontaria um imenso deserto de quatro metros quadrados. Não havia mais ninguém para cuidar, ninguém com quem se preocupar, exceto nos sonhos, nestes sonhos onde ainda angustiado lutava, em vão, por aqueles que amava. Ao acordar, sabia que esta batalha fora perdida muitos anos atrás, mas a cada noite, o mesmo tema, os mesmos personagens, com variações nos cenários, figurinos e figurantes, voltava à vida. Ele não temia o sono, assustador como fosse, mas secretamente até o aguardava, com a esperança de que o sonho, ainda que por breves, atormentados, tortuosos momentos, lhe trouxesse de volta aqueles que perdeu.

 

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Sobre Rogério Guimarães

Rogério Guimarães nasceu em Santo Antônio da Platina (PR). Gosta de desenhar e tocar violão. Vegetariano não praticante, curte esportes radicais como yoga e tai chi chuan.Busca inspiração para escrever em Pasárgada, Shambhala e na paisagem cosmopaulistana. Participou da antologia de contos Abigail, publicada pela Editora Terracota, e do ebook Geração em 140 Caracteres, editada pela Geração Editorial. Seus próximos livros serão lançados em 2012, se o mundo não acabar.

  1. Uau! Que trama maravilhosa Rogério! Muito bom!

  2. Sheila Boesel

    Gostei Rogério, especialmente destas imagens:
    “A penumbra do quarto era a sua última defesa. Sem ela, defrontaria um imenso deserto de quatro metros quadrados.”

  3. Dor e saudade deu numa ótima mistura!

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