Encoste a porta, por favor

end

Coincidências são bem interessantes. E um início de inverno pode vir a ser um algo pressago. Henrique hora está a mirar-se no espelho. Quem o vê barbear-se então com tamanha maestria, sequer supõe que há um mês atrás se havia postergado de si mesmo. Comia mal, dormia pouco; isolou-se. Acabrunhado, de todo apático, macambúzio. As olheiras davam-lhe um aspecto mortuário. E tinham-no mesmo tal qual um morto-vivo – se é que vivesse deveras. Afundou-se em vícios e em versos; e o versejar fora talvez o pior deles. É outro, não obstante, ou quase outro; que não pôde deixar de ser o mesmo. Tem hora a cara lisa e bem fresca, e embora traços de mágoa e desengano. Enxuga o rosto como a “enxutar-se” do outrora, vertido em lágrimas. A entrevista é às oito.
Levantara-se às seis; as seis e quinze despertou; aprontou-se em dois quartos de hora. Inda antes das sete sorvia o último gole de café, tomado às pressas e como às prestações. Seria dar um grande passo: tocar a vida e já então com um novo emprego. E não menor que o passo era a sua expectativa. Fremia de ansiedade. E pode até ser que fosse medo; que os traumas são os mais temíveis dos temores. Respirou fundo; uma, duas, três vezes; suspirou. Foi-se, por fim. O caminho não era longo, no máximo uns vinte e dois minutos; e tão logo chegaria. Trânsito tranquilo neste horário; pisasse a meia-tábua e era assaz. Bem mais ínvias eram as vias das ideias… Inevitável era pensar naquele inverno. Não ia a sós no carro, embora o fosse. Consigo iam as lembranças, e com elas as más reminiscências; ia ela… E, bem, u’a grande negativa como abre um precedente a tantas mais decepções. E, se não o é na prática, é ao menos o que sente o coração.
Poucos concorrentes à vaga; não mais que seis, contando ele próprio. E entretanto era uma só e única; e bem como seis lha disputavam, tanto fazia ser acaso dois por uma ou mesmo uma pra um milhão. Porém o Henrique confiava em seu curriculum, e no mais possuía larga experiência em cargo análogo. Vinha chegando a sua vez. Ergueu-se e foi até o bebedouro. Sorveu dois goles de água: era umedecer a sua garganta e os lábios. A boca seca, mas ia bem a entrevista. Quando indagado sobre o porquê deveria ser ele o contratado, rebrilharam os seus olhos. Disse dedicar-se pelo que ama e acredita. Viu esboçar se lhe um sorriso… Dispensado, enfim, ouviu esta frase: — Encoste a porta, por favor. Assim despedira-se do amor, em hospedar a solidão.

Rocha Oliveira é romancista, contista e poeta. Inspirado especialmente em obras clássicas e grandes autores, como Camões e Machado de Assis, procura com sua obra (prosa e poesia) resgatar um pouco do sentimento e do ideal de nossas Letras. Em 2013, foi um dos vencedores do I Concurso Literário “Cidade das Asas”, categoria Conto, e da seleção para antologia da Big Time Editora, categoria Poesias. Site do autor: http://rochaolliveira.wix.com/autoreobra

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  1. Sheila Boesel

    Obrigada pela participação em nosso blog!
    Sucesso no fazer literário!

    • Eu quem agradeço, Sheila.
      Grato pelo espaço, viu.
      Aliás, o que é preciso para fazer parte do blog como um “titular” (digamos assim)?

      • Sheila Boesel

        Frederico, muito obrigada pelo interesse, ficamos contentes com ele. No momento, nosso grupo de colaboradores do Coletivo Claraboia é fixo. Havendo oportunidade de mudanças neste quesito, entraremos em contato.

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