Aplique de menos

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— Filha, vá já tomar um banho e lavar essa cara. Sorte sua que esse desleixo, essa aparência de velha doida, sai de tu com água e sabão. Sua irmã não tem a mesma sorte, mais nova que tu e parece sua mãe, sua avó, sei lá. É bem isso mesmo, tu arruma um pouco esse cabelo, passa um batom e um lápis nos olhos e fica na mesma hora igualzinha tu era no colégio.

E era verdade. Das poucas que ela já disse. Elisandra parecia ter dobrado os quarenta, sendo generosa na avaliação. Com pouco esforço, eu ficava igual à Carol, minha filha, que tava com 14 anos quando eu parti. Todo mundo diz que parecemos mais irmãs que mãe e filha.

Eu não tive nada do que a Carol tem, carinho, aplique, chapinha, direito de ir ao colégio, futuro. O que eu sempre tive foi essa gordura toda e um uniforme pronto pra vestir.

Sabia que a Carol ficaria bem com a velha. Duvido até que minha mãe já tenha amado alguma outra pessoa na vida. Se não fosse isso, teria me deixado doar a criança no hospital, como era minha intenção desde que peguei barriga.

Então um dia eu fui. Em busca do meu futuro. Melhor, em busca de um futuro a partir de onde a vida tomou o rumo errado. Claro que esse palavrório todo não saiu da cachola aqui; vi escondido isso na minha pasta no arquivo da psicóloga. Tudo anotado numa letra de professorinha.

Quando vi a turma saindo da escola, lá em São Carlos num dia desses, a primeira coisa que me veio na mente foram aquelas palavras da minha mãe.

Depois acho que não pensei mais coisa nenhuma. Tudo foi meio que acontecendo. Fui trabalhar no McDonald’s, ia sempre arrumada. Hoje, qualquer mulher atrás de um balcão está toda pintada. Ou isso, ou rua.

Quando a Rita, uma das funcionárias mais velhas, me perguntou quantos anos eu tinha e por que não ia à escola, como as outras garotas, a estória saiu sozinha. Fui inventando que tinha sido abusada pelo meu velho, que tinha morrido, graças a Deus. Que minha mãe também já tinha falecido vários anos pra trás. Que escola eu não via há bastante tempo, agora que eu tinha que me virar sozinha.

Na mesma semana, fui morar com a Rita. Ela me matriculou na escola. Fiz amigas. Minhas notas eram melhores do que as da Carol, bem melhores mesmo. Os professores gostavam de mim. Os colegas todos. Arrumei um namorado. Ele tem 18. Um negão lindo, gostoso, gentil…

Eu quase consegui. Vida nova.

E nisso a polícia concorda comigo.

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Sobre Aline Viana

Aline Viana nasceu em São Paulo, em 1981, mas prefere que não espalhem a que safra pertence. É formada em jornalismo. Cansada de tanto quem, o quê, quando, onde, como e porque resolveu entrar em um curso de crônicas. Foi um santo remédio para recuperar a saúde de seus textos. Se o diagnóstico está correto, você pode checar nos blogs: cronicasdas12.blogspot.com e semanalmente no vidasetechaves.wordpress.com . Novos pareceres são sempre bem-vindos.

  1. Sheila Boesel

    Surpreendente! Gostei!!

  2. Aline você tem se superado a cada texto. Parabéns! Muito bom!

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