Ah tá

tenisObrigado! Como eu odeio estes cadarços. Se soltam a todo instante. Não adianta apertar bem, dar nós, após alguns passos lá vão eles, os dois, estão novamente soltos. Devem ser mágicos. Seu tênis está desamarrado. Por causa deles as pessoas não param de me parar. Obrigado! Sempre atrasado. Não vou perder tempo para amarrá-los. Que saco! Só quando estiver no trem, sentado. Obrigado! Saco! Quanto exagero. Não vejo ninguém tropeçar e cair por causa de um simples cadarço. Eu, que só ando com eles assim, nunca tropeço. Ah tá. Droga! Obrigado, senhora! Até curto este tênis, é confortável, de marca boa, lamentável somente… Obrigado! Deveriam ter velcro. Obrigado! Saco! Nem na escada rolante as pessoas relaxam. Preciso correr para entrar naquele vagão. Opa. Fui dizer que nunca tropeço, quase caí, mas entrei. Viu? Mesmo pisando em um deles é impossível cair. Putz, aqui está lotado. Sem cadeira para sentar, amarrar, o pessoal parar de me alertar. Não sei por que se preocupam tanto com um cadarço desamarrado. Olha só lá nas ruas. Ali. Debaixo das marquises. Nas pessoas desatadas nas calçadas ninguém repara. O quê? Ah tá?

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Sobre Gláuber Soares

Gláuber Soares mora em São Paulo. Formou-se em Jornalismo, mas o seu maior erro foi comprar um All Star de cano alto e cor roxa pensando levar azul-marinho. Skatista calhorda, nos finais de semana é possível encontrá-lo no litoral sul, ao pé da serra do Mar, numa casinha verde, próxima do Rio Negro, à procura dos tons que não enxerga. Participou das coletâneas de contos: Abigail (2011), Dos Medos o Menor (2012) e A Arte de Enganar o Google (2013) – todas pela Terracota Editora. Em 2014, também pela Terracota, lança sua coletânea de contos Remédio Forte. Também bloga em glaubti.wordpress.com E-mail: glaubersoares@terra.com.br

  1. Ah tá. Obrigada por esse texto Gláuber! Bom pra iniciar o dia!

  2. Bom texto, Gláuber. Os cadarços sempre me inspiraram. Tenho um poema eternamente inacabado envolvendo cadarços… Foi bom ler seu texto para voltar a vontade de retrabalhá-lo. Grande abraço!

  3. Sheila Boesel

    “Nas pessoas desatadas nas calçadas ninguém repara.” – adorei Gláuber!!

  4. O texto envolve desde o início, e o final eu também achei ótimo .

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