Lavanda

lavandaLavanda lembra meu pai. Ele sempre gostou do cheiro de lavanda. Em dias de mercado, de comprar produtos de limpeza, essas coisas de casa, ele que nunca pedia nada, o seu único pedido era:

– Tem lavanda? Pega o de lavanda.

Meu pai, quanto tempo faz. Meu pai, era uma dor à parte. Mas essa não é uma história sobre pai, nem mãe. Vamos falar de outra coisa. Só lembrei disso tudo por causa da vela que acendi: de lavanda (como se fosse possível comprar uma vela de lavanda original nessas loja de 1,99). Levei três de uma vez. Sem o troco de 3 centavos, fiquei com exatos 5,45 reais na carteira. A embalagem de plástico dizia: lavanda – amor e prosperidade. Era tudo o que eu precisava: amor eterno e prosperidade à prova de qualquer crise econômica.

Mas não seria por causa da vela, nem do meu pai, que eu me lembraria daquele dia, 10 de junho de 2009, para sempre. Seria por outra coisa. Seria porque as coisas já não podiam mais continuar como estavam. Porque um dia tudo basta. E, enfim, um dia, tudo bastou.

Acendi as três velas de uma vez. Vale tudo quando se precisa de sorte. Liguei o som. Procurei “I can see clearly now”. Droga! Não, não podia ver tudo claramente. A música não combinava. Pareceu melhor ficar só com o latido do cachorro que vinha do outro lado da rua.

Fui até a janela. As pessoas passavam tranqüilas. O vento passava tranqüilo. E até os carros passavam tranqüilos. O vizinho abaixou para catar o cocô do cachorro. Ah, a normalidade da vida, como é reconfortante a normalidade da vida. A rotina é o verdadeiro sinal de que tudo vai bem, mesmo quando nada está no lugar.

O que me mata é a curiosidade de saber como as coisas poderiam ter sido se…Enfim, saber qual teria sido o trajeto da outra possibilidade.

– As coisas sempre são como tem que ser – dizia, sempre, meu pai.

Será? Sempre tive dúvidas, mas querendo acreditar e torcendo para que fosse verdade. As coisas são como tem que ser. Faz bem acreditar nisso. E o quase é um abismo na beira da estrada.

É, como queria saber como a minha vida teria sido se… não é à toa que a palavra se é tão pequena, porque as circunstâncias em que cabem os SEs da vida são capazes de mudar o nosso destino por pouca coisa.

Será que para mim, aquela resposta, estava chegando naquele 10 de junho de 2009? Se fosse sim, então, a resposta é que eu tinha escolhido errado. E disso, me lembraria para sempre.

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Sobre sandrareginasantos

Nasceu em Londrina

  1. Sandra, amiga que texto ótimo!! Viajei com você sua canceriana danada de boa! Show!

  2. Sheila Boesel

    Gostei do clima de memória que veio com cheiro de lavanda! Abraço!

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