A idade certa (II)*

2013

– Cadê a Rita?
– Assim, vó, encosta bem o corpo na almofada.
– Eu quero a minha boneca…
– Que boneca, vó?
– A minha boneca Rita.
– Nunca vi essa boneca, vó.
– Minha única boneca. Me devolve.
– Não tá comigo, vó, mas da próxima vez eu te trago uma boneca.
– Não quero boneca, quero a Rita. Cadê a Rita? Por que a Rita não chega?
– Ela não vai mais chegar, vó.
– Onde ela foi?
– Ela se foi, a mamãe se foi.
– Rita, onde tu escondeu a minha boneca?
– Não, vó, eu não sou a Rita, sou a filha dela, sua neta.
– Quero a Rita. Cadê a Rita? Por que a Rita não chega?
– Daqui a pouco ela vem, vó.
– Me leva contigo.
– Não posso, vó, não moro mais em Santa Cruz.
– Cadê a Rita? Ela disse que me levava.
– É, vó, quando ela voltar, acho que ela leva a senhora junto.
– Me ajuda.
– O que a senhora quer?
– Quero a Rita.
– A mãe vai demorar, vó.
– Mãe? Minha mãe morreu. Eu era tão nova.
– Então somos duas nessa sina, vó. A minha mãe também morreu.
–Tantos anos vivendo na casa dos tios, sonhando com o dia que ia trazer a minha mãezinha pra junto de mim.
– Eu sempre morei com a mãe, mas isso não importa. Sinto tanta falta dela, vó.
– De quem?
– Da minha mãe, da Rita, vó, tua filha.
– Rita? Rita era o nome da minha boneca. Minha boneca querida. Único presente que ganhei da minha mãe. Onde ela tá? Sinto tanta falta da minha mãezinha.
– Sua mãe já morreu, vó, nós não a conhecemos.
– Morreu? Mas eu estava juntando dinheiro pra ela vir morar comigo.
– Vó, isso foi quando a senhora era moça, a bisa morreu há muito, muito tempo. Achei que a mãe se chamava Rita por causa dela.
– Cadê a Rita? Devolve minha boneca.
– Eu não tenho nenhuma boneca.
– Chama a Rita, ela sabe onde tá a minha boneca.

Toca um celular, a moça fica de lado pra senhora, procurando o telefone na bolsa.

– Rita! Rita! Rita! Vem cá filhinha, onde tu se escondeu? Rita! Rita! Rita! – Idosa se levanta. – Aparece filha, eu não estou braba. Não faz mal que tu pegou minha boneca. Vem filha, vem com tua mãe. Rita! Rita! Rita!
– Senta, vó. Vó, vó! Enfermeira, socorro! Alguém… – A moça começa a chorar. – Calma, vó… Se acalma, calma…

Bruxa II por Sheila Boesel

Bruxa II por Sheila Boesel

* Trecho do conto, de título homônimo, publicado no livro “Nem te conto II” da Editora Gazeta Santa Cruz Ltda. A antologia – que reuniu 31 escritores, entre os quais o chileno Antonio Skármeta (autor do romance O carteiro e o poeta, dentre outros) – foi lançada em Porto Alegre e Santa Cruz do Sul (RS), nos dias 12 e 13 de novembro de 2013.

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Sobre Sheila Boesel

SHEILA BOESEL nasceu em 1976, em Santa Cruz do Sul (RS). Formada em jornalismo, trabalha com escritos, sejam próprios ou encomendados. Mudou-se para São Paulo em 2008, mas ainda estranha quase tudo. Gosta de histórias desde a encarnação em que foi traça e, se lembrasse as aventuras que vive enquanto dorme, possivelmente iria tentar a sorte em Bollywood.

  1. marcus

    que saudades!!!!! estes contos enchem os olhos de lágrima

  2. Valeria Salem

    : ) Deu vontade de ler o resto! Parabens, Sheila! Adoro seus contos. Beijos!

  3. Maria Elvira

    Olá, gostei muito do conto. Parabéns!

  4. Aline Viana

    História intensa e, ao mesmo tempo, super sensível. Parabéns, Sheila!
    E também fiquei querendo acompanhar mais a saga dessa avó e dessa neta. 🙂

  5. O mal do esquecimento num texto cheio de lirismo. Gostei no livro e gostei do fragmento aqui.

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