Tamara

Imagem: Vivian Maier

Imagem: Vivian Maier

Todo mundo viu Tamara em seu último dia. E não é exagero. Do Centro não houve quem não acorresse à delegacia para dar sua contribuição, certamente crucial, para o achamento da garota. Era como se o bairro inteiro tivesse combinado de sair à janela para ver Tamara passar. O desaforo maior era justamente esse: ela ter desaparecido sob as fuças de todo mundo, em pleno sol quente.

A dona Ivana do café Royal contou que a Tamara logo cedo foi ao seu estabelecimento. Não passavam das seis e meia da manhã. Arrumada ela! Informação que não acrescentava rigorosamente nada, avaliou consigo o delegado Franco, uma vez que a moça era uma entre tantas outras emperiquitadas do lugar. Continuou a dona Ivana dizendo que Tamara pediu um café e uma quiche de espinafre. Pagou em dinheiro e não deixou nem um centavo de gorjeta pra Cibelinha.

A Cibelinha declarou que a Tamara parecia distraída durante a refeição. Tinha ficado o tempo inteiro olhando pela janela, como quem espera chegar alguém conhecido. Ou como quem não espera nada. “Nada da vida”, ela reforçou. Quando foi instada a se explicar melhor, a Cibelinha saiu-se com essa: “Oras, assim mesmo, como se não visse o povo!”.

Da banca de jornal, o Antenor viu quando a Tamara, ajustou os óculos escuros e a barra da saia branca de bolinhas pretas e entrou na primeira à esquerda a partir do café Royal. Lá foi vista pelo Zé do Óculos, pelo alfaiate e pela cabeleireira Joelma, que mentalmente anotou o penteado, inédito para ela que se julgava entendida no assunto. Uma coisa chique, como atriz de cinema, com grampos ocultos ou coques aparentes, independente do que quaisquer dessas coisas fossem, Franco fez com que constassem no depoimento.

Os meninos que brincavam na Praça da Matriz perceberam a chegada da moça pelo toc-toc regular do salto contra as pedras do calçamento. Quando ela cruzou o gramado, confirmaram a impressão pelo perfume forte e gostoso de baunilha que deixava no ar. Ela ainda parou um instante e deu umas jujubas pra Suzi, que brincava de escolinha, fazendo ora a professora ora os alunos, sob a árvore grande. Depois a moça seguiu como quem fosse pros lados das pousadas ou mesmo pro cais.

O Almir da Pousada Azul confirmou que Tamara vinha da Praça da Matriz e isso lá pelas 10h30 da manhã. Se ela tinha saído o mais tardar às 07h25 do café Royal como tinha demorado tanto para chegar à pousada Azul? Nem que ela andasse em câmera lenta! Não houve quem se recordasse de ela ter parado em algum lugar. Ninguém lembrava ter retardado a moça para comentar sobre o tempo, questionar se já estava mesmo próxima a abertura da biblioteca, onde ela trabalharia em breve ou mesmo para jogar algum flerte maroto.

A não ser… Sim, a não ser que ela tivesse parado numa das igrejas. Lá foi o Franco mandar o Silva questionar todos os padres até achar aquele que poderia ter ouvido a confissão da moça. Elementar, diria Franco se tivesse um interlocutor à altura, se ninguém contou tê-la visto na missa, sinal que estava a sós com o pároco.

Lá pelo meio da tarde, o padre Darín veio dar o seu depoimento. Disse que sim, conversou a moça pela manhã, durante a missa do padre Hercílio. Porém, adiantava que não tinha muito o que contar: boa parte da conversa se deu em segredo de confessionário.

─ Seu delegado, ela apenas entrou, me chamou de canto e disse que precisava confessar e perguntou se eu não poderia fazer isso por ela.

─ Mas ela estava normal, seu padre? Não estava nervosa? Não levava consigo nenhuma mala? Não lhe disse que iria fugir?

─ Antes da confissão, ela só me disse isso mesmo. Ela se confessou e eu recomendei dois pais-nossos e cinco ave-marias. A menina me agradeceu a benção. Sentou num banco mais ao fundo da nave, pagou a penitência e seguiu o seu caminho, como sempre.

─ Não padre, não como sempre, pois ninguém acha mais a menina. Ela não disse para onde iria? Quer dizer, esse tanto de reza não é para pecado grande? Devia estar comunicando algo grave… Digo, e fora do confessionário, ela não lhe disse nada?

─ Franco, homem, se você fosse mais vezes à Igreja talvez soubesse que o número de rezas não está diretamente ligado ao tipo de pecado. Se assim fosse, era só ficar contando as rezas dos outros pra saber o que alguém fez ou deixou de fazer! O que houve é entre ela e Deus, filho.  Mas ela não me disse nada pra onde ia, não. Fora do segredo do confessionário não me disse nada. E não trazia mala nenhuma. Só a bolsinha de mão. E o xale pra poder entrar na igreja.

─ Quer dizer que ela saiu preparada pra entregar a alma a Deus?

─ Franco, pela última vez, deixe de dizer tanta bobagem. Toda mulher dessa cidade carrega o xale na bolsa, pra poder entrar na Igreja. É a mesma coisa você que carrega na carteira a sua identidade.

O jeito foi o Franco voltar aos depoimentos do pessoal da rua doutor Pereira. A Hebe, da loja de artesanato, a tinha visto seguir rumo ao cais perto da hora do almoço. A moça havia lhe pedido um copo d’água e comprado um trabalho de crochê dos mais baratinhos. A vendedora não a tinha reconhecido a princípio, só foi ligar o nome à pessoa quando ouviu a notícia do desaparecimento no rádio.

─ Ela estava normal. Pagou, agradeceu a água e foi andando. Eu não vi pra onde direito porque tinha muita coisa na loja pra organizar e logo entrou outra freguesa. Uma turista de São Paulo, que me comprou umas três redes, umas colchas de retalhos e até umas gamelas.

Os barqueiros se lembravam de tê-la visto pelo cais. Pelo menos o Bento, filho do seu Levi, e o Jacinto viram. Isso pelo meio-dia. A menina Betina disse que ela andava com os sapatos na mão, deixando molhar os pés na beira da praia, pouco adiante por aquele caminho mesmo. E depois nada. Ninguém viu mais nada.

Não havia testemunhas de que ela tenha entrado em barco. Nenhum deles estava faltando no cais, a propósito. Nenhum taxista a conduziu. Ou admitiu ter conduzido. Na rodoviária, guichê algum lhe vendeu passagem. Franco ainda interrogou cada um dos catorze motoristas de ônibus que pararam na cidade no dia do sumiço de Tamara. Nada. Os caminhoneiros também diziam o mesmo.

Tamara, filha do seu Jonas e da dona Mariana, vinte e dois anos de idade, futura bibliotecária da cidade, presença certeira nos bailes, objeto de desejo de tudo quanto é rapaz desses lados – mas, mais inclinada a aceitar a proposta do doutor Henrique, advogado recém-chegado. Tamara, loira de farmácia, olhos cuja cor de mar ninguém lembrava o tom, leitora de Rachel de Queiroz e de “O apanhador no campo de centeio”, de um tal de Salinger. Tamara que tomava três xícaras de café por dia, não gostava de tangerina e dispensava o glacê do bolo.

Dessa Tamara ninguém soube mais o que dizer. 

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Sobre Aline Viana

Aline Viana nasceu em São Paulo, em 1981, mas prefere que não espalhem a que safra pertence. É formada em jornalismo. Cansada de tanto quem, o quê, quando, onde, como e porque resolveu entrar em um curso de crônicas. Foi um santo remédio para recuperar a saúde de seus textos. Se o diagnóstico está correto, você pode checar nos blogs: cronicasdas12.blogspot.com e semanalmente no vidasetechaves.wordpress.com . Novos pareceres são sempre bem-vindos.

  1. Aline, acho que sei o paradeiro de Tamara. Ela decidiu que queria muito mais que ser uma simples bibliotecária de cidade pequena. Se mandou para Nova Iorque, mudou de nome para Regina Finch, foi trabalhar naquela puta biblioteca pública maravilhosa e lá, conheceu o belo Sebastian Barnes e a seu lado, prazeres nunca imaginados em sua pacata vida de antes. Ai como é bom deixar fluir a imaginação! Menina adorei seu texto! O que terá acontecido a Tamara hein?

  2. Gostei muito, Aline! Parabéns! Bjs 😉

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