Curto-circuito 2

Foto: Getty Images

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Tudo teve início enquanto fazia minha corrida de fim de semana.

Ouvindo Greenday no último volume, seguia num trote tranquilo pela Marquês de Itú.

Foi quando aconteceu. Primeiro uma tontura, depois minha visão ficou turva e a seguir um nada imenso.

Percebo pessoas ao redor, movimentação, mas não consigo participar de nada. Acordo numa maca do pronto socorro atordoado pelas medicações que  recebo pela veia. O que aconteceu? Era uma pergunta que não saia de minha conturbada mente, mas incapaz de formular verbalmente, volto para o plano do vácuo e permaneço assim não sei por quanto tempo.

Pi!Pi!Pi!Pi!Pi!Pi!Pi! Pi! Pi! Pi! Pi! Pi! Pi! Pi! Pi! Pi! Pi! Pi! Pi! Pi! Pi! Pi! Pi! Pi!

Que local é esse? Sinto frio. Hei moça de branco me dá um cobertor estou morrendo de frio! Ela não me ouve ou faz que não ouve. Hei doutor! Me cobre, está muito frio aqui você não sente? Não ouve também. Os dois conversam e não consigo entender o que falam. Mal consigo enxergar suas bocas se movimentando. Minha visão também está bem ruim.

Tento me levantar, mas o corpo parece cimentado na cama. Não tenho controle algum sobre meus membros. Que situação! O que será que tive? Será por conta de minha dieta maluca para ganhar massa muscular?

Bem que Anita andava reclamando de minhas neuras com o corpo. Vivia falando: “Roberto se continuar assim vai acabar anorético. Já estou ficando irritada por fazer comida e você olhar de lado e só ficar nessa fissura de comer batata doce. Credo homem! Não enjoa não? Comer só isso em todas as refeições?”

Pôxa! Ela não entende que boa parte do meu esforço em adquirir massa muscular é para agradá-la? Quero que ela sinta orgulho de seu marido. Já andei até percebendo alguns olhares furtivos de suas amigas quando elas me vêm na piscina do clube. A Otávia, outro dia peguei no flagra medindo de cima a baixo meu corpo sarado só de sunga. Vi desejo em seus olhos semicobertos pelos óculos de sol. Quando nossos olhares se cruzaram, ela bem que tentou disfarçar, mas ficou vermelha feito pimenta brava.

E a Carmen então? Minha cunhadinha de dezenove anos outro dia numa brincadeira bem que alisou meus bíceps e me lançou olhares de ninfeta safada. Ah se a Anita fica sabendo disso! Nós dois estamos na roça. Oh mulher ciumenta! Ou era, nem sei mais. Ultimamente estávamos brigando muito por conta da minha dedicação ao corpo perfeito. Reclama o tempo todo que não paro mais em casa, que só tenho tempo para a academia. Outro dia então, jogou verde pra colher maduro, como dizia minha vó Clarice. Começou a fazer perguntas sobre a academia, sobre os professores, quis saber quem é quem.

Deu também pra reclamar que não faço mais amor com ela. Putz! Ela não entende que ando cansadão que só?

O dia a dia na empresa está cada vez mais duro. Mundo cão mesmo! Em parte é por isso que me mando para a academia como forma de desestressar de todo perrengue que passo durante o dia no departamento. Outra noite, depois de muito bate boca, ela me jogou na cara que não adianta nada um corpo musculoso se não dou conta do principal: foder! Olha que abusada! Falou exatamente assim, nesses termos mesmo! Chamou de brocha na cara dura! Fiquei arrasado, pois ela tinha razão. Mas cadê a sensibilidade da mulher que escolhi para ser minha companheira? Na alegria e na tristeza? Semana passada fez as malas e se mandou. Não atendeu mais nenhum telefonema meu. Fiquei mal! Mandei uma mensagem dizendo: “É assim? Tem certeza? Depois não adianta aparecer por aqui chorando e pedindo arrego. Lá na academia mesmo está cheia de mulheres gostosas, saradas dando mole pra mim. Até hoje resisti por respeito e amor a você.”

Nem se deu ao trabalho de me responder.

Outra noite saí com Larissa, uma colega de academia que vivia dando mole pra mim. Putz cara! Foi o maior fiasco da minha vida! Não funcionei nem de leve. Que vergonha! Aposto que foi praga da Anita. Só pode né? Vivia falando:

“ Ainda vai morrer disso seu boçal. Está radicalizando demais, pare enquanto há tempo. Já ouvi falar de muitos casos de atletas que acabaram por enfartar por conta dessa drogas para ficarem com massa muscular. Você está cavando sua sepultura amor! Te conheci magro, me apaixonei por você magro. Não gosto de você assim esculpido nos músculos mas infeliz, faltando o principal que é sua vitalidade interior que se perdeu no meio de tanto anabolizante.”

E eu, imbecil que sou, ignorava todo seu discurso de mulher apaixonada e preocupada me admirando no espelho. Ela queria morrer com essa minha atitude!

Pi!Pi!Pi!Pi!Pi!Pi!Pi! Pi! Pi! Pi! Pi! Pi! Pi! Pi! Pi! Pi! Pi! Pi! Pi! Pi! Pi! Pi! Pi! Pi!

Tá difícil de respirar! Tô com muito medo! Doutor chama minha mulher! Enfermeira, por favor, para de verificar minha pressão e presta atenção no que peço: chama a Anita. Fala que tô muito mal. Tenho certeza que se ela souber que estou aqui, larga tudo o que estiver fazendo e vem ficar comigo.

Ahhhh!!! Tô com medo moça! Ajuda, por favor! O que está acontecendo comigo? Estou morrendo? É isso? Falaaaaaa!!!

– Doutor, o paciente parece inquieto apesar de não se mexer. Veja, seus batimentos estão irregulares.

– Tem razão enfermeira. Está enfartando novamente. Traga o ressuscitador!

– Cuidado! Quando contar até três aplique: Um, Dois, Três. Vai!

– Nada ainda doutor!

– De novo então: Um, Dois, Três. Vai!

– Doutor ele está indo embora!

– De novo: Um, Dois, Três. Vai!

– Foi Doutor!

Silêncio.

– Anota enfermeira: hora do óbito 16h47 minutos.

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Sobre Roseli Pedroso

Roseli Pedroso nasceu em 1963, em Osasco (SP). Bacharelada em Biblioteconomia pela FESPSP, é bibliotecária escolar. Viver entre livros e palavras é sua grande paixão. Em 2011, participou pela primeira vez em uma antologia de contos Abigail, publicada pela editora Terracota. Também participa das coletâneas Corda Bamba e Ocultos Buracos, ambas da Pastelaria Studio, de Portugal. Colabora no site: http://melecachiclete.blogspot.com.br/ Seus blogs: http://bibliotequiceseafins.blogspot.com http://sonhosmelodias.blogspot.com

  1. Assim é a vida, melhor dizendo, morte. Gostei!

  2. Fernando Rocha

    Boa trama! Gostei da narração em primeira pessoa, torna o texto mais próximo do leitor. O desfecho prende e surpreende.

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