Pois tu tiveste ânimo de matar teus filhos?

 

Tarsila

Nenhum deles imaginava o que uma mãe precisa fazer pelos seus.

Ela ficou atenta para o assoalho.

Sujo.

Grosso.

 

— Pois tu tiveste ânimo de matar teus filhos?

 

Tarsila não queria devolver os olhares.

Os olhares de ira de alguns

De raiva de outros.

E os de nojo da maioria.

Não a abalavam.

 

Dilacerava sim imaginar as suas crias sofrendo.

Sem ela, dentro da casa, seriam negrinhos remelentos.

No terreiro, quase branquinhos azedos.

Fariam  o que no lugar dela?

 

— Pois tu tiveste ânimo de matar teus filhos?

 

O seu senhor iria vender ela. Tinha certeza!

Já tinha ocupado.

Usado.

Cuspido o bagaço.

Escarrou de vez quando trouxe outra negrinha, nova e com a bunda grande, para tirar as suas botas.

 

— Pois tu tiveste ânimo de matar teus filhos?

 

Filhos sem mãe padecem. Ela sabe. Ela viveu sem

Ninguém para escutar o seu choro.

Para tirar seus piolhos.

Para rir de seu olhar.

 

Cresceu sozinha.

Aprendendo lidar com os homens.

Pretos

Brancos

Todos iguais.

No aperto, resistir e levantar a saia.

Fez e nasceu o Vitório, seu mais velho. Do Domingos Criolo, o feitor.

 

Depois o seu senhor pousou os olhos em seu traseiro.

Bem na hora que estava fazendo doce de leite.

E ele quis

Ela riu.

Deixou

Sem desendar o doce.

Ele a levou para dentro.

Deu um quarto.

Mandava na cozinha.

 

— Pois tu tiveste ânimo de matar teus filhos?

 

Não precisava de mais ninguém

Veio Libânia, Joana e João. Seus graciosos funfuns.

 

E a bunda grande chegou. Fez mandiga.

Olhar do seu senhor embaçou.

Tarsila viu que ele iria a vender.

 

— Pois tu tiveste ânimo de matar teus filhos?

 

Pena que faltou coragem para se matar.

Torceu para que o cão as comesse. Mais era velho.

Comeu terra.

Babosa

Capim.

Só a barriga doeu.

 

— Pois tu tiveste ânimo de matar teus filhos?

 

Se jogou no rio mas não afundou.

Fugiu até que o seu mais velho a encontrou.

Tarsila explicou.

Chorou.

Apanhou do filho até desmaiar.

 

— Pois tu tiveste ânimo de matar teus filhos?

 

Teve sim!

Eram filhos seus!

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Sobre Plínio Camillo

Nasci em 26 de novembro de 1960. Aos três anos descobri que as letras tinham significados. Aos cinco, a interrogação. Aos nove, não era sintético. Aos 12, quis ser espacial. Aos 15, conquistei a exclamação. Aos 17 vi os morfemas. Aos 20 estava no palco. Aos 22 me vi como um advérbio. Aos 25 desenredei a Lingüística. Aos 27 redescobri as reticências. Aos 30, a juventude. Aos 35 recebi o maior presente: Beatriz Camillo, aquela que me trouxe a felicidade. Aos 40 desvendei uma ligeira maturidade. Aos 41 voltei para Sampa!!!. Aos 45, recebi o prazer de viver em companhia. Aos 50 anos, uso óculos até para atender telefone. Hoje: escrevo.

  1. Amei !! Mais um texto dolorido e lindo, que nos coloca magicamente dentro da cena.

  2. Que puta texto!!!! Desculpa meu palavreado mas foi o que consegui cuspir ao término da leitura. Maravilha de história, personagens e realidade.

  3. Bela(e trágica) história. Aguardo ansiosamente todas reunidas numa coletânea.

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