Sinal vermelho

O japonês parecia saído de uma caixa de japoneses. A camisa azul desbotada, tendia para o verde. A calça jeans velha e larga se segurava a duras penas ao cinto. Naquele dia nublado, os carros achavam que não deviam dar vez a ninguém, nem mesmo a um japonês que queria seguir seu caminho, portando uma pasta na qual levava a própria vida.

E a vida dele parecia leve, mas com uma importância tamanha que era preciso ser contraída com toda força das duas mãos junto ao peito. Ali talvez ele pudesse senti-la vibrar. Ou auscultar o bater das preocupações que lhe bombeavam o sangue.

O semáforo parecia torcer pelos carros, pois não se dignava a dar sinal verde ao japonês surrado à margem na calçada. A menina de calça de zebra que quase trombou no homem, enquanto conversava com uma amiga de cabelos cor de palha, não se sensibilizou com aquele drama pedestre porque ela mesma seguiria sem interrupções pela calçada. Apenas avaliou, como num segundo plano da mente, que a passagem ficaria mais livre sem o estorvo do homem parado ali.

Não sei quanto tempo levou para que o semáforo finalmente se cansasse da própria parcialidade. Aquele adversário não dava mostras de que pudesse desistir, como muitos que iam avançando pela pista, ou outros que seguiam pela calçada como se assim pudessem adiantar a posição que deveriam ter no outro lado. Nem a chuva que rugia sua intenção de despencar naquele mesmo instante afastava o nipônico de seu ponto junto à faixa preta e branca.

O farol não podia compreender que seu estratagema seria sempre inócuo contra aquele samurai, armado de pasta de couro. Via-se que aquele homem, ao contrário de tantas vítimas do humor negro daquele sinal, sabia quais lutas escolher e que o caminho estaria à sua espera pelo tempo que fosse necessário.

Crônica originalmente publicada em Vida a Sete Chaves.

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Sobre Aline Viana

Aline Viana nasceu em São Paulo, em 1981, mas prefere que não espalhem a que safra pertence. É formada em jornalismo. Cansada de tanto quem, o quê, quando, onde, como e porque resolveu entrar em um curso de crônicas. Foi um santo remédio para recuperar a saúde de seus textos. Se o diagnóstico está correto, você pode checar nos blogs: cronicasdas12.blogspot.com e semanalmente no vidasetechaves.wordpress.com . Novos pareceres são sempre bem-vindos.

  1. belo texto, Aline! cada vez gosto mais…

  2. Bacana, um conto sobre a velha e inquebrantável paciência nipônica.

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