Namoro na Tevê

xvvUhu, é agora! Após um monte de capítulos mornos, enfim, a novela esquentou, o bonitão vai pegar a mocinha… Nãão! Lá vem ele mudar pro futebol. Viu? É sempre assim. Não tem respeito algum por mim. Mas deixa pra lá. Tudo bem. Nem me importo mais. Observe, vai começar o seu show: o homem senta na poltrona, coloca os seus pés fedidos encima do coitado do puff, abre uma lata de cerveja e já começa a xingar a mãe do ladrão. Nunca entendo por que xingam a mãe de alguém. Que culpa tem a mulher se não foi impedimento e o ladrão parou o contra-ataque do seu time? Quando o centroavante perde um gol, pronto, é motivo pra xingar até a bisavó do perna de pau. Vai pro inferno, seu… Agora, se faz o gol ele grita como um louco. É isso aí! Que golaço!, chuta o pobre do puff, chora, sorri, arrota – tudo ao mesmo tempo. O perna de pau vira o melhor do mundo: esse é seleção, não amarela, vai pra Copa! Manda o vizinho de baixo chupar… nunca diz o quê. Solta foguete na sacada do outro, depois, pra se esconder, apaga a luz da sala. Não adianta. Todos sabem que foi o gordo do sétimo andar. O síndico não perdoa, no dia seguinte por baixo da porta outra multa. O homem rasga a multa, joga os pedaçinhos do papel pela janela, xinga a mãe do síndico. Antes do final do mês, pra não ficar com o nome sujo, é obrigado pedir a segunda via pra pagar. Mas o pior aconteceu na noite que o seu time foi rebaixado: o infeliz tacou a coxa do frango em mim, a bandeja de amendoins, algumas latinhas de cerveja – por sorte estavam todas vazias. O que eu te fiz, hein? Eu não sou o frangueiro do seu goleiro. Não gostei. O filho da mãe me arranhou toda. Veja aqui as marcas. Viu? Mais tarde, arrependido, veio me alisar. Ah vai!, sai pra lá. Que nojo! Fiquei igual ao ensebado do controle remoto, toda engordurada. Timinho ridículo! Encolhido no sofá, quis voltar a ser criança e não escolher time pra torcer. Depois disse que jamais iria abandonar. Deu dó. Nessa noite ele bateu o seu recorde, xingou, além da mãe do ladrão, o frangueiro, o perna de pau, todos da defesa, do meio de campo, o técnico, o presidente, o bispo, a geladeira por falta de cerveja – como se a grandona saísse da cozinha e fosse ao supermercado. Após o apito final foi a vez do vizinho de baixo mandar ele chupar, também não disse o quê. O de cima pulou a madrugada inteira calçado nos saltos da mulher. O nosso teto parecia que ia cair. Ele ligou no interfone do síndico pra reclamar. Difícil de acreditar, imagine, o equilibrado do síndico mandou varias vezes ele chupar – outro que não diz o quê. É. Mas ainda prefiro ele assim, ensandecido, soltando seus palavrões, do que quando me coloca no canal de filmes. Não sei por que insiste. Eu que – após a novela – tanto desejo a sua companhia, tento seduzi-lo com as minhas quarenta polegadas de alta definição, exibindo em 3D imagens perfeitas, além do mais puro som digital. Mas o homem logo adormece e eu fico sozinha, falando pro surdo do puff. Menina, e como esse danado ronca, precisa ver, parece a porca prenha do canal Rural…

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Sobre Gláuber Soares

Gláuber Soares mora em São Paulo. Formou-se em Jornalismo, mas o seu maior erro foi comprar um All Star de cano alto e cor roxa pensando levar azul-marinho. Skatista calhorda, nos finais de semana é possível encontrá-lo no litoral sul, ao pé da serra do Mar, numa casinha verde, próxima do Rio Negro, à procura dos tons que não enxerga. Participou das coletâneas de contos: Abigail (2011), Dos Medos o Menor (2012) e A Arte de Enganar o Google (2013) – todas pela Terracota Editora. Em 2014, também pela Terracota, lança sua coletânea de contos Remédio Forte. Também bloga em glaubti.wordpress.com E-mail: glaubersoares@terra.com.br

  1. Maravilha de conto! Lembrou até uma antologia que tenho aqui só sobre futebol onde vários autores renomados estão presentes contando seus “causos” futebolísticos.

  2. Um espelho da subida para a primeira divisão!! Vai Palestra!!! Belo conto, parceiro!!

  3. Fernando Rocha

    Seu conto carrega o leitor pelas emoções das personagens. Lembrei de um episódio dos “Simpsons”, no qual o Homer toma um psicotrópico que altera suas emoções freneticamente, acho que o futebol tem este mesmo poder, ao menos foi o que o seu conto me fez refletir.

  4. Torcedores são sempre engraçados. Legal a mudança de perspectiva.

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