Encontros

Christmas1

(Imagem do site Santarosa)

Véspera de Natal.
Luzes intermitentes dão um toque mágico à cidade embrutecida pelo concreto e vidro. No vigésimo sétimo andar do arranha céu mais famoso da cidade, cartão postal de todo turista que a visita, paira um vulto solitário.
De lá  tem uma visão privilegiada da paisagem urbana. Consegue enxergar algumas janelas dos apartamentos dos prédios vizinhos e pode até mesmo acompanhar as atividades de seus moradores.
A alegria estampada nos rostos de uma família dando os últimos retoques na árvore natalina. As crianças vibram de alegria, os adultos se olham numa cumplicidade mútua. Daquelas que somente surgem nos corações que amam verdadeiramente.
Numa outra janela, vê um casal de idosos que, solitários em suas poltronas, trazem uma manta de lã aquecendo suas enfraquecidas pernas saboreando seu chocolate quente. Assistem ao especial de Natal na TV.

Uma bela e poética visão!

Num outro prédio, avista um casal em seu quarto num momento da mais pura intimidade. O homem segura sua amada como se segurasse a coisa mais preciosa de sua vida. Com firmeza para não perdê-la, mas com uma delicadeza de alguém segurando um raro cristal. Olhos nos olhos, boca na boca, mãos se encontrando, se apalpando, se acariciando. O cabelo da sedutora dama cai em cascatas no peito do cavaleiro. Ela cavalga como verdadeira amazona conhecedora daquele dorso que monta.

E como monta bonito!

Na janela ao lado, um grupo talvez de amigos já celebram a data entre si. Estouram um champanhe, brindam, sorriem se abraçam como velhos e estimados companheiros. Uma canção serve de trilha sonora para esse encontro: e a bela e delicada voz de Diana Krall cantando Have Yourself a Merry Little Christmans… Como sua voz está linda nessa canção!  Reconhece, pois tem em sua coleção esse CD Ouvir Christmans Álbum de Natal.
Em meio à escuridão da noite, um sorriso se forma em seu rosto até então sem expressão.
Lembra-se do Natal que ganhou esse CD de presente. Lembra-se de quem o presenteou. Foi um Natal tão especial! Um dos mais felizes que vivenciou.
Seus olhos agora marejados pelas lembranças embaçam a visão da próxima janela. Seu corpo enrijecido pelo vento frio começa a doer e a adormecer. Respira fundo.

A decisão já está tomada.

Num ato de despedida, olha mais uma janela daquele prédio e o que vê assusta: um vulto feminino que nu balança no peitoril. Olhos inexpressivos e inchados, maquiagem borrada, boca retorcida num esgar de dor. Numa das mãos segura uma taça de champanhe. Sorri ao encontrar seus olhos. Levanta a taça em sua direção num claro movimento de brindar.
Seu coração bate num compasso diferente.
– Não! Não faça o que está pensando jovem! – olha contando os andares do prédio para ter ideia de que andar ela está.
Grita para ela esperar um pouco e sai em disparada. Nunca os andares daquele prédio demoraram tanto para descer pelo elevador. Parecia que trabalhava em slow motion.
Chegando à rua dirigi-se a portaria do prédio e explica de forma atropelada a situação que viu lá de cima. Sai à rua com o porteiro e olham para cima. Veem o corpo se balançando naquela friagem invernal. Reconhecendo o andar e o apartamento, entram correndo e o porteiro pega uma chave mestra. Juntos sobem os andares num silêncio que diz claramente que estão em oração. Pedem ao Todo Poderoso que segurem a jovem um pouco mais ali em cima.
– Olá! Está me reconhecendo? Sou a figura na escuridão do prédio em frente. Você me viu, ofereceu uma taça de champanhe e aqui estou para tomar junto à você. Vamos entrar porque aí fora está muito frio. Podemos adoecer. E sorrindo, olha nos olhos e envolve a moça em seus braços, trazendo-a para dentro. O porteiro, sem graça em ver a moça nua, se afasta um pouco e desvia o olhar. Pergunta se precisam dele ainda, pois deixara a portaria sozinha e podiam reclamar dele ao síndico. Saiu de mansinho.
A sós, o homem pega uma peça de roupa e começa a vestir a jovem como se ela fosse uma boneca. Em silêncio desde que entrara no quarto, olha como se não entendesse aquele ser que teima em falar com ela. Embriagada que está, não consegue entender nada mas agrada o toque daquelas mãos em seu corpo. É bom!
Após ambos tomarem uma xicara de chocolate bem quente, a lucidez já se faz presente pouco a pouco na bela moça.
– Eu queria morrer! – balbucia a jovem de forma quase inaudível.
– Eu também! Por isso estava lá encima. Estava decidido e apenas me despedia dessa cidade que tanto amei, nasci e vivi. Se não tivesse avistado você aqui, a essa hora já estaria juntando gente ao meu redor.
– Você também ia se matar? Por quê?
– Solidão.
– Eu também.

– Não tem ninguém?

– Não. E você?

– Também não tinha.
– Como assim?
– Não tinha. Estava solitário, mas agora tenho você. Salvei, portanto agora sou responsável por você. A propósito, como se chama?
– Karina e você?
– Gustavo. E então? Me aceita em sua vida para cuidar, amar e te fazer feliz para que nunca mais pense em morrer?
– Mas isso é o mesmo que pedir em casamento. Você é louco ou o que? Nem me conhece!
– No momento de desespero é que conhecemos a verdadeira essência do outro. Eu me enxerguei em teus olhos e você também se enxergou nos meus. Nos encontramos e não foi por acaso. Pode ter certeza.
– Você parece ser um cara legal, do bem.  Está mesmo decidido a passar o Natal comigo?
– Se permitir bela Karina, passarei não só o Natal, mas o resto de minha longa vida com você.
Véspera de Natal.
Apesar de uma parcela da humanidade ter certa desconfiança com relação ao milagre de Natal, o espírito natalino vive resgatando vidas e devolvendo-as à rotina gostosa e calorosa do convívio humano. Muitas vidas são resgatadas e nem ao menos se apercebem que foram alvo de um milagre.
Do outro lado, no mesmo prédio onde Gustavo pensava em se suicidar, mais uma vida se vai não aguentando o peso da realidade. Essa vida, infelizmente não alcançou o tal “milagre”.
Uns conseguem, outros não. E assim ela, a vida,  segue seu curso.

E longe, uma canção natalina, agora um tanto melancólica canta um White Christmans que se espalha no ar…

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Sobre Roseli Pedroso

Roseli Pedroso nasceu em 1963, em Osasco (SP). Bacharelada em Biblioteconomia pela FESPSP, é bibliotecária escolar. Viver entre livros e palavras é sua grande paixão. Em 2011, participou pela primeira vez em uma antologia de contos, Abigail, publicada pela editora Terracota. Também participou das coletâneas Corda Bamba e Ocultos Buracos, ambas da Pastelaria Studio, de Portugal. Faz parte da coletânea Descontos de fadas, da Alink Editora. Lançou seus contos Recortes de vidas e suas crônicas Receituário de uma expectadora, ambos pela Scenarium. Colaborou no site: http://melecachiclete.blogspot.com.br/ Seus blogs: http://bibliotequiceseafins.blogspot.com http://sonhosmelodias.blogspot.com

  1. Fernando Rocha

    A melancolia do natal em um retrato preciso. Lembrei de Lou Reed vagando por Nova Iorque, por conta do seu narrador onisciente. A canção poderia ser “River”, da Joni Mitchell, não?

    • Oi Fernando que bom ter você por aqui! Obrigada pela visita e comentário tão profundo. Amigo desculpe a minha ignorância mas não conheço essa canção da Joni Mitchell. Vou procurar por ela. Gracias!

  2. Olá Roseli, gostei bastante. A vida é mesmo assim, né? Cheia de encontros, desencontros e tudo mais!

  3. Oi Adriano! São essas sucessões de encontros e desencontros que tornam a vida bela. Obrigada pela visita e comentário.

  4. Nem tudo está perdido(ao menos para alguns). Belo conto, Roseli!

  5. Querida Roseli, ainda há razões para acreditar no ser humano. Adorei o conto, É verdade que o espírito natalino vive resgatando vidas, acredito nisto, particularmente no “espírito natalino” oriundo da empatia que algumas pessoas têm e que lhes oportuniza a compaixão, a compreensão, o perdão, etc, sentimentos alentadores e milagrosos. Um beijo grande e parabéns pelo conto.

  6. Um conto otimista de Natal que deve emocionar a muitos.

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