Quase Musical

Fotografia de Luigi Orru

Fotografia de Luigi Orru

A encomenda, pesada e tão esperada, chegou pela manhã, em pacote grande, bem embalado, exatamente no prazo anunciado. Um produto de última geração, com baixo consumo de energia e  design minimalista, o humanoide doméstico multifuncional tinha a estatura e porte de um adolescente. Fora adquirido em infinitas prestações mensais, mas não era uma despesa, era um investimento, a mulher não se  cansava de repetir. O marido, cansado de discutir e desguarnecido de evasivas, críveis ou não, acabou cedendo e encarando o financiamento. Por que estas novidades precisam custar tão caro?

Mas Kuaze era mesmo uma maravilha da tecnologia robótica. Cozinhava, lavava a louça e a roupa, que passava e  guardava, fazia as compras no mercado, e até pequenos reparos nas roupas, na casa, no carro, nos outros utensílios domésticos. Se você botar na ponta do lápis, vai ver que estamos até economizando, dizia a mulher, ao longo dos primeiros meses de satisfação. Foi dela o grito de horror ao voltar para casa e encontrar Kuaze retorcido e imóvel, em curto-circuito bem no meio da sala, a janela ainda aberta, por onde entrava o som de violino, tocado pela vizinha recém chegada de viagem, uma turnê internacional de grande sucesso, segundo os jornais.

— Como assim travou? — gritava o homem — Ainda nem terminamos de pagar e já estragou.

Telefonaram para a garantia  e o produto foi encaminhado para assistência técnica. Depois de alguns dias, após uma série de testes, Kuaze foi devolvido em perfeito funcionamento. O motivo da pane, entretanto, continuava uma incógnita, que permaneceu em suspense até a próxima execução musical da violinista da janela ao lado.

Era domingo, o homem e a mulher em casa, assistindo tevê enquanto esperavam o almoço, o robô arrumava a mesa quando, ao som do violino, ele travou outra vez, as mãos abrindo e fechando continuamente, o resto do corpo imóvel, e o olhar perdido, com uma expressão quase devocional, apontado na direção da casa da vizinha. Era a música, o proprietário afirmou ao técnico, que parecia bastante descrente. O produto não era equipado com dispositivos ou funções musicais, e não havia registro deste tipo de defeito, o produto fora testado em laboratório e era capaz de tolerar ruídos em intensidade insuportável a ouvidos humanos. Mas não havia outra explicação, o homem insistia. O investimento tão alto, não podiam perder, e a garantia estava perto do fim. O homem até pensava em repassar o produto para a construção civil ou indústria pesada, para recuperar parte do dinheiro.

— Mas é um produto tão delicado, não foi feito para isso, não vai durar nada — argumentava a mulher, inconformada.

— É a única forma de recuperar um pouco do que gastamos.

Elaboraram uma estratégia, um verdadeiro plano de guerra, para evitar a exposição de Kuaze àquela música outra vez. A janela agora ficava a maior parte do tempo fechada, tarefas em outros locais da casa foram atribuídas ao humanoide, exatamente nos horários em que a vizinha costumava praticar com o instrumento. A vigilância era constante.

O plano funcionou por tempo surpreendentemente longo, com ajuda das constantes viagens da musicista, o robô preservado dos sons musicais trabalhava perfeitamente, mas um minuto de distração foi suficiente. Bastou um pouco de inspiração fora de hora, e a melodia do violino invadiu a sala no momento em que Kuaze estava limpando a janela. No lado oposto, os olhos digitais encontraram a artista e e seu instrumento, deles não se desviando até o final da execução. Mas desta vez ele não travou, apenas parou de operar durante a música, depois saiu em ziquezague claudicante por cinco minutos, e logo retornou ao seu modo de funcionamento normal. Menos mal, a mulher já ia contatar outra vez a assistência técnica, mas não foi necessário, ele parecia normal.

Na tarde seguinte, quando o homem e a mulher chegaram em casa, encontraram Kuaze empunhando um violino, ou algo muito semelhante.

— Onde foi que você arrumou madeira? — perguntou ele, antes de perceber que a a poltrona da sala havia desaparecido.

O casal vasculhou a casa, aos gritos a cada item que encontravam destruído ou avariado. Finalmente, ele arrancou o instrumento das mãos de Kuaze, e o destroçou contra a parede.

— Você vai consertar tudo o que estragou!

O humanoide era realmente muito habilidoso, e a maioria dos utensílios foi restaurada com vestígios mínimos. O robô, contudo, passou a ter modos sombrios, agora sempre cercado por um silêncio grave, um olhar afiado, as respostas em voz quase inaudível, entrando e saindo dos cômodos sem ser percebido, parecia um fantasma.

Outra vez, ela chegou e encontrou a casa cheia de música, o violino se fazia acompanhar de percussão, provavelmente algum amigo da vizinha viera para o ensaio, e Kuaze, na cozinha, com colheres, tampas e panelas, acompanhava os músicos com percussão metálica. A mulher berrou cheia de raiva, estava com dor de cabeça e queria que parasse com aquela barulheira, por isso tomou as colheres das mãos dele, mas Kuaze pegou outras, e depois pegou garfos, e privados destes e das panelas, pegou uma faca, e outra, e agora ressoava seus instrumentos penetrando a carne humana, produzindo som abafado e úmido, até que arrancou alguns ossos, e percutia-os uns contra os outros, e o homem que chegava nem teve tempo de gritar, mas logo se juntou à esposa, agora instrumento musical, a casa toda tingida de vermelho, os vizinhos absortos na música, nunca antes tão intensa e visceral, mas que fatalmente chegava ao fim, Kuaze em êxtase, encerrando sua primeira Sinfonia Percussiva em Sol Maior para Sangue e Ossos.

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Sobre Rogério Guimarães

Rogério Guimarães nasceu em Santo Antônio da Platina (PR). Gosta de desenhar e tocar violão. Vegetariano não praticante, curte esportes radicais como yoga e tai chi chuan.Busca inspiração para escrever em Pasárgada, Shambhala e na paisagem cosmopaulistana. Participou da antologia de contos Abigail, publicada pela Editora Terracota, e do ebook Geração em 140 Caracteres, editada pela Geração Editorial. Seus próximos livros serão lançados em 2012, se o mundo não acabar.

  1. Encantador!! Transpirado e inspirado!

  2. Caaaaaara! Amei esse texto! Uau! Parabéns!

  3. Surpreendente final. Muito bom!

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