Sacramentos

07 -   escravo marcado 

Imagem: B. Aparecido dos Santos

Extrema-unção

Velho Dito devoto de São Miguel.

Como seu pai foi.

Como sua mãe foi.

Contou sua caminhada em voz muito baixa.

No meio das galinhas as baratas não têm razão”.

 

*****

 

Batismo

Ainda Ditinho, quando desgrudou dos seios, brincava também pelado com os branquinhos.

Corriam. Pulavam. Subiam.

Lambuzavam na lama tanto.

Mas tanto que ninguém, de longe, conseguia saber o que era quem.

Um dia, o futuro Senhor Francisco, ainda Chiquinho, mordeu e Ditinho achou certo revidar.

Abocanhou meio braço do menino branco. Vento que venta lá, venta cá.

Chiquinho, abriu o maior berreiro.

Todos vieram.

Uns pensando ser cobra.

Outros, um cachorro louco

Umas negrinhas achando que tinha quebrado a perna.

Outras que tinha caído da árvore.

Quando secou as lágrimas o menino apontou o braço. “ditinhomemordeu!

Bastou para o negrinho levar a primeira de grandes surras.

Descaderou. Levou uma sova que só muita salmoura aliviou.

Antes dos sete anos, Ditinho começou a ajudar a mãe na cozinha da casa.

 

*****

 

Crisma

Crescido no fogão, virou Benê. Tinha a canela fina.

Aprendeu a descascar laranja sem rebentar a casca

Como colocar uma mesa para festa.

Como lavar a roupa do senhor para a missa.

Como pentear a senhora fazendo cafuné.

Também a rezar, ser humilde, simples, devoto, pacifico e obediente.

Viu muitas vezes o senhor patrão rolar com uma serviçal na despensa.

Nunca falou nada, nem quando o menino Ricardo, que morreria cedo de gonorréia, fez ele de mulherzinha na mesma despensa. Foi adestrado na chibata a cuidar da sua própria vida.

 

*****

 

Ordem

Virou Dito, acusado de roubar umas moedas da senhorinha, que muito depois morreria no parto do quinto filho.

Quando ela constatou: gritou.

Cuspiu nele

Xingou de maldito e fedido.

Apesar de não ser nada erudito.

E ter rogado muito para São Expedito.

Sentiu o veredicto: Estava frito.”

Foi preso. Julgado. Condenado.

Trezentos acoites e mais de dois anos nos trabalhos forçados.

 

*****

 

Eucaristia

Ditão virou nas correntes.

Aprendeu a brigar e apanhar sem chorar.

Descobriu em ferros pegar a traição.

Impor e indispor

Entendeu com algemas a predispor e compor

Com as marcas nas costa, libertado, foi vendido para outra casa: um carpinteiro português. Viúvo e sem filhos: Seu Joaquim.

Ajudava na lida do patrão.

Domava as madeiras.

Vencia o lenho.

Entendia o cerne

Modificava o pau.

Perdeu o dedo indicador.

A pretaria era ele e uma negrinha faceira para copa, cama e mesa, Dagmar.

Ele dormia ao pé da escada quando frio. E na lua quando calor.

 

*****

 

Matrimônio

O velho Joaquim insistiu.

O agora Benedito, não quis. “Praque?”

Mandou

Obedeceu. Casou na sombra da capela com a Dasdores

Boa para doces e melhor nos salgados.

Sua especialidade era receber todos os viajantes que passavam. “Quase uma Madalena” Mais moedas para o velho Joaquim

Com a lida lua-a-lua conseguiram: comprar uma casinha de dois cômodos, a alforria dela e bostelas.

Muito depressa eram pústulas por toda a parte: cara, junto ao nariz, atrás das orelhas, nos sovacos, nas partes vergonhosas e publicas.

Bem que Benedito pelejou para aliviar a negra. Deu de mercúrio a aguardente. De mijo quente a mel de abelha. Dasdores morreu peidando.

Com a viuvez e um banzo que galopava, o velho Joaquim mentiu e disse que Benedito estava livre. Tomou os cômodos e o colocou no mundo.

 

*****

 

Reconciliação

Carcomido pela vida: passava a mão nos meninos.

Abençoava os homens

Tentava pegar as flores das meninas.

Fugia das mulheres.

Contava vividas histórias inventadas por um copo de cachaça que sempre terminavam assim: “No meio das galinhas as baratas não têm razão”.

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Sobre Plínio Camillo

Nasci em 26 de novembro de 1960. Aos três anos descobri que as letras tinham significados. Aos cinco, a interrogação. Aos nove, não era sintético. Aos 12, quis ser espacial. Aos 15, conquistei a exclamação. Aos 17 vi os morfemas. Aos 20 estava no palco. Aos 22 me vi como um advérbio. Aos 25 desenredei a Lingüística. Aos 27 redescobri as reticências. Aos 30, a juventude. Aos 35 recebi o maior presente: Beatriz Camillo, aquela que me trouxe a felicidade. Aos 40 desvendei uma ligeira maturidade. Aos 41 voltei para Sampa!!!. Aos 45, recebi o prazer de viver em companhia. Aos 50 anos, uso óculos até para atender telefone. Hoje: escrevo.

  1. Excelente escrito.Negramente tudo a ver.tinham que inventar um Nobel só pra negros,né?

  2. Amigo suas histórias são de uma veracidade e beleza que faz com que apaixonemos pelos personagens. A cada leitura, vivo com eles na senzala as dores e alegrias de uma raça que tanto pelejou na vida. Parabéns e obrigada por compartilhar com a gente essas vidas.

  3. Seus contos estão cada vez melhor!

  4. Adorei o começo, muito denso, contém a história toda. O conto todo muito bom, enxuto, uma vida inteira passando diante dos olhos. Parabéns.

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