O auto da barca de sushi – Parte II

Trouxemos shoyu, gengibre e wasabi, o diabo falou com voz descontraída, indicando a barca com a mão esquerda, dando início à abertura dos trabalhos. Comecei com um sushi de salmão que ele flambou na hora – trazia um maçarico no bolso do paletó. Estávamos na terceira garrafa de saquê (o assessor carregava outras em uma bolsa térmica), quando pediu autorização para pegar um vinho na adega climatizada. Escolheu Grand Théâtre. Bordeaux. 2009. O diabo tem senso de humor, não se pode negar. O negócio é que com a bebida nem o diabo pode, e disso eu fiquei sabendo quando ele soltou o verbo ou, como diria minha avó, desenrolou a língua de trapo. Confessou estar um pouco cansado, que havia negociado com organizações tão poderosas que já não era mais detentor de direitos muito antigos e, o pior, que a culpa continuava recaindo pro seu lado. Andava tão confuso o pobre diabo que marcara até consulta com um psicanalista renomado perto do shopping Iguatemi, mas logo no primeiro encontro desconfiou quando o diagnóstico de ansiedade pré-apocalíptica sem exame prévio veio seguido de um receituário de medicamento tarja preta. Não se deixaria neutralizar pela indústria farmacêutica, essa sim trabalha com coisa pesada!, acusou ele, apoiando os pés sobre a cadeira da frente. E o diabo danou a falar de si mesmo. Que assaltava geladeira nas madrugadas. Que tinha o senso de humor incompreendido (creio que foi nesse momento que revelou sua predileção pelo cinema italiano e mencionou Pasolini). Que andava pensando em se tornar vegetariano, mas não conseguia abrir mão da comida japonesa (peixe cru era seu ponto fraco). Que gostava de música erudita, um aficcionado por Sebastian Bach (às vezes se referia a si próprio em terceira pessoa), tendo especial predileção por Jesus, alegria dos homens. Sobre os livros de cabeceira, apreciava os clássicos: Bíblia Cristã, Torá, Corão… No momento estava relendo o segundo livro dos Vedas (Yajurveda). Os outros, fui eu mesmo que ditei a maioria!, exclamou sem disfarçar seu pecado capital favorito.

Foi então que sacou do bolso da camisa o meu cartão de visitas.

[continua em 20 de dezembro de 2013]

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  1. Aline Viana

    Estou adorando essa ideia de acompanhar como por fascículos o desenvolvimento da história 😀

  2. Maria Esther

    Sempre que leio, tenho certeza de que este dia realmente aconteceu…
    Muito bom!

  3. Menina você está se superando! Amando cada capítulo dessa história!

  4. Obrigada, Rô! Um beijão!

  5. Divertido. Já estou no aguardo do próximo capítulo.

  6. Divertidíssimo, também estou na fila para o próximo.

  7. quase saindo a próxima barca!

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