Tá chovendo Tilápia!

ChuvaDePeixes

Época de chuva em terra de boi, sempre aparece vaca frita no pasto. O povo diz que é treino divino, que de vez em quando o cara lá de cima precisa soltar uns raios pra desenferrujar. Quem disse que o todo poderoso precisa treinar mira pra acertar gente que merece castigo? Até hoje nunca se ouviu, em todo Rio Grande do Sul, história de homem frito por raio. Aqui a vaca ainda é a preferência divina e nacional! Crescemos na base da picanha e alcatra. Aqui é terra de homem bom, mas como todo ano tem vaca frita por raio, é melhor se cuidar. Se o céu escurecer, pego logo o rumo de casa, preparo o chimarrão e coloco uma picanha pra assar.
 Num desses dias passou por mim o Tito Caramelo, menino irrequieto, chinelo de dedo nas mãos e gritando: “Corre seu Vander! Corre!”. Dei-lhe uma guarda-chuvada pra ensinar ao mal criado que mandar velho manco correr é zombaria. Mas o coitado só queria avisar que atrás dele vinha a cidade toda correndo da chuva que podia matar. Logo pensei que era crendice sobre o raio divino, mas achei melhor não duvidar. Saí foi as pressas, vai que o divino enjoou das vacas e resolveu praticar justo comigo. Foi Dona Jandira que alarmou: “Tá chovendo tilápia! Corre buscar panela que hoje nós vamos variar.” A primeira pancada foi no ombro. Parecia ser um bagre pequeno, não deu tempo de ver. Entrei direto pros fundos de casa pra recolher as carpas que caiam no quintal. Não era sonho nem culpa da cachacinha que tinha acabado de beber. Na vizinha da esquina chovia corvina; na do lado, a mais pobrezinha, o chão estava forrado de sardinha. O Seu Bartô, que dava fundo com o meu quintal, encheu a geladeira de pintado. Ninguém foi capaz de consolar o açougueiro Argemiro que ficou mais de mês sem freguês pra comprar um pedaço de bife depois do ocorrido. Choveu peixe de tudo quanto foi pedigree. As mulheres do bairro alto deixaram caldeirões pernoitar no telhado pra amanhecer peixe vivo pra cuidar até o Natal. Dona Coralina, muito religiosa, gargalhava à toa por causa da antiga piscina que tinha nos fundos da casa. Juntou tanto tambaqui e tilápia que toda sexta-feira foi santa até o carnaval. Sem esquecer dos coitados dos lambaris, os mais levinhos, que foram cair lá no quintal das moças do cabaré daquele homemulher, o tal do Darcy. Os professores das faculdades disseram que foi um tornado que passou pelo lago Guaíba e cuspiu peixe por aqui. Que nada! Em terra de boi, só milagre pra mudar o cardápio.

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Sobre Fernando SanPrieto

Fernando SanPrieto nasceu em 1974, em Catanduva (SP). Estudante por vocação, é graduado em Artes Plásticas e Design, pós-graduado em Ensino de Artes, ator recém formado e PhD em não usar nada disso. Impaciente, lê mais de um livro de cada vez e sempre mistura as histórias.

  1. Muito bom!!! belo texto!!

  2. Que delícia de texto Fernando! Deu água na boca ver tantos peixes assim, caindo do céu.

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