Penny Lane

Imagem: Vivian Maier

Imagem: Vivian Maier

O banco do carro afundou no formato exato da minha bunda. É o que o meu pai diz ao me ver entrando no Chevy novamente. “Pra quê ouvir música no carro?”, ele ainda me grita da cozinha. “Porque tem estilo”, respondo. Ele ainda balança a cabeça, provavelmente pensando que vou arriar de novo a bateria. Mas eu já aprendi o truque: ligo de quando em quando o motor e pronto. E desço todo o vidro das janelas, pra não acharem que vim me matar aqui. Só que eles, os vizinhos e meus pais, acham que o que eu quero com isso é incomodar a vizinhança com o som. Ah, tanto faz.

O lance do carro é que lá dá pra pensar direito. Ponho o rádio no FM e deixo em alguma estação de rock. É o suficiente para afastar todo mundo de mim. Ou todo mundo com “bom gosto”.  Daí ponho meus óculos escuros, fecho os olhos e começo a pensar nas primeiras coisas que vou fazer quando sair daqui. Sempre penso nisso.

Antes eu era bem primária nesse negócio. Pensava em dar umas voltas de bicicleta com a Joana ou que poderia ir na Cidade no dia seguinte, passear. Bem depois é que fui perceber que eu realmente poderia sair daqui. Quer dizer, hoje já tem gente que vai à lua, né? Então eu poderia ir, sei lá, pra Paris, Nova York, Casablanca. O Rio de Janeiro seria um bom começo, tenho pensado nisso há algum tempo.

Tem as praias de lá. Fico me imaginando sentada na areia, com meu biquíni listrado, olhando o mar. Tentando ver cada vez mais longe. Os estúdios de tv e de  cinema estão lá. E tem as rádios todas. E a música. Boa música é feita lá, que eu sei. Eu poderia trabalhar com música, fico pensando nisso também. Com o Vinícius, o Chico e o Tom Jobim. Mas eu não sei se poderia fazer coisa boa mesmo. Dessas que põe a pessoa pra pensar. Te levam longe. Por que, realmente, qual é o sentido de ficar aqui?

A minha mãe acha que eu vou ficar. E me casar com alguém bonitinho e de boa família, alguém como o Vicente, que é filho de uma amiga dela bem de vida. Aposto que o Vicente vai cursar medicina, abrir uma clínica em Higienópolis, casar e ter dois filhos lindos pra exibir num porta-retrato do consultório. E eu sou do rock – como dá pra ouvir até no fim da rua.

O meu pai já acha que a médica serei eu. Que vou estudar numa faculdade dessas grandes e tal. Médica?! E ficar a vida toda num hospital? Será que eu vim de algum lugar do espaço e invadi o corpo da filha deles? E daí meus amigos aliens reprogramaram a minha memória pré-abdução, junto com a dos meus pais, sabe, por engano? Tenho pensado muito nessa hipótese.

Admitindo que eu tenha mesmo vindo do espaço, tenho mais é que explorar o planeta e a cabeça desses seres que se acham muito inteligentes, os tais humanos. Que se acham, sim. Até porque é só abrir o jornal para a gente desconfiar dessa tal superioridade da espécie: tem gente que vai presa por não saber nem mentir pra polícia, pode? Aquele caso do homem que gastou todo o salário em bebida no buteco, depois inventou que havia sido roubado no ônibus e não resistiu nem a um interrogatório de  checagem, dizia lá na matéria.

O que eu preciso é pensar uma maneira de ficar sempre viajando por aí. Sei lá, ser motorista de caminhão, trapezista de  circo, atriz de Hollywood, arqueóloga, ou escritora de guias de viagem… É, escritora de guias de viagem parece perfeito!

Ainda bem que eu sempre deixo um caderninho e caneta no porta-luvas. Vou escrever uma matéria fantástica e mandar para o pessoal do Lonely Planet. Só que eu preciso abafar nesse texto. E tem que ser algo que ninguém lá fora já tenha feito. Um lugar realmente desconhecido e com um povo cheio de idiossincrasias muito absurdas, desses que a gente acha o maior barato conhecer porque não tem que morar com eles… É, tá decidido: eu vou escrever sobre o meu bairro: a Vila Formosa!

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Sobre Aline Viana

Aline Viana nasceu em São Paulo, em 1981, mas prefere que não espalhem a que safra pertence. É formada em jornalismo. Cansada de tanto quem, o quê, quando, onde, como e porque resolveu entrar em um curso de crônicas. Foi um santo remédio para recuperar a saúde de seus textos. Se o diagnóstico está correto, você pode checar nos blogs: cronicasdas12.blogspot.com e semanalmente no vidasetechaves.wordpress.com . Novos pareceres são sempre bem-vindos.

  1. Boa viagem!!! Texto gracioso!!

  2. Que delícia de texto! Ela me lembrou um pouco da menina que fui um dia.

  3. Luciane

    Aline, adorei o texto. Estais cada vez melhor… beijos

  4. Aline, quando eu era criança ficava me achando ouvindo música no rádio da Variant verde do meu pai! Adorei relembrar, adorei a personagem fofa e cheia de sonhos! Muito lindo seu texto. bjo

  5. que formosura, certeza que se daria bem com Peggy Sue! ;D

    • Aline Viana

      E eu que não tinha ideia de que realmente havia uma “Peggy Sue” até esse seu comentário, rsrsrs Acho que poderiam sim formar uma bela dupla 😛

  6. Personagem cativante. Muito bacana.

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