Os Quindins de Iaiá

Abcdef

Após a longa frente fria, numa manhã de sábado, como a de hoje, com o sol esbanjando sua energia, sinto aquela sensação única de bem estar. Aroma de felicidade. Os olhos se iluminam. O sorriso sai fácil. Alegria natural. Começo a cantarolar… Mas não dessa vez! Ao sair de casa para ir à padaria, os raios solares não aqueceram a minha gélida alma. Vivo há um bom tempo impregnado com um bloqueador da felicidade fator mil. Os problemas me sufocam. Por que Deus me abandonou? Qual é o meu pecado que Ele não perdoa? Tento há um bom tempo chamar sua atenção. Escrevo SOCORRO na areia. Estou me afundando cada vez mais. Grito seu nome. A água já está no meu queixo. Por mais que me esforce não consigo sair dessa situação. Sem esperança de mudança, tenho procurado uma forma indolor pra morrer. Que seja rápido, sem sofrimento. Mas nem isto é solução: “os suicidas vão direto para o inferno”. Se a vida não é boa aqui na Terra, imagine viver eternamente num lugar de “choro e ranger de dentes”. Talvez um bandido resolva este problema. “Perdeu, mané, passa a carteira e o celular”. Não vou passar nada, não. “Qualé, mané?” Não ouviu? Não vou passar nada, não, seu chifrudo. Todos os meus problemas estariam resolvidos. Só não sei, nos céus, se tecnicamente isto seria computado como suicídio.

– Os pãezinhos acabaram de sair do forno. O senhor vai levar quantos?

– Ah, então eu quero dez.

Dez pãezinhos quentes… o pessoal em casa vai gostar. A manteiga se derretendo sobre o pão. Xícaras de café com leite. Todos em harmonia se saciando e felizes. A vida não é um comercial de margarina. Este mundo colorido é uma farsa. O pão nunca chega esfumaçante à mesa. É tudo mentira. Por que o Senhor me rejeitou? Muda a minha sorte, por favor. Não aguento mais…

– Esses quindins estão frescos?

– Estão. Foram feitos hoje.

– Me dá um… não, traz dois.

Hummm, isto é mesmo uma delícia, muito bom. Pena que são tão pequenos.

– Mais dois.

A vida pode não ser comercial de margarina, mas nada com um quindim após o outro.

– Cesinha, por favor, traz mais um.

As coisas vão mudar.

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Sobre Gláuber Soares

Gláuber Soares mora em São Paulo. Formou-se em Jornalismo, mas o seu maior erro foi comprar um All Star de cano alto e cor roxa pensando levar azul-marinho. Skatista calhorda, nos finais de semana é possível encontrá-lo no litoral sul, ao pé da serra do Mar, numa casinha verde, próxima do Rio Negro, à procura dos tons que não enxerga. Participou das coletâneas de contos: Abigail (2011), Dos Medos o Menor (2012) e A Arte de Enganar o Google (2013) – todas pela Terracota Editora. Em 2014, também pela Terracota, lança sua coletânea de contos Remédio Forte. Também bloga em glaubti.wordpress.com E-mail: glaubersoares@terra.com.br

  1. Quem já não se sentiu assim? E nada como um doce para adoçar a alma. ótimo texto Gláuber!

  2. Barroco? Rococô?
    Glauber!!!Parabéns belo texto!

  3. Engraçado como o mundo conspira para levantar o astral do protagonista mal humorado. Contraponto interessante para o personagem comum que mantém o pensamento positivo apesar de todos os obstáculos.

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