Tumbeiro

Navio_negreiro_-_Rugendas

Pintura de Johann Moritz Rugendas

 

Depois de capturados, são enfiados em uma grande cabana.

Feitoria.

Pouca comida.

Algumas roupas.

Coça a granel antes do banho

 

Depois da chuva de lágrimas:

Crianças brincam , mulheres cuidam e os homens estão impotentes.

 

Diversos idiomas.

Diversas nações.

Diversos.

Diversas.

 

No meio da noite, maré baixa, são jogados na grande barca. Seu ventre exalava pavor.

Muitos nunca tinham visto algo tão grande.

Tão medonho.

Tão assustador.

Tão escuro.

Tão covarde

 

Ficam em baixo.

No fundo.

No escuro.

 

Atados. Subjugados. Impedidos

O calor faz tremer.

Crianças cantam, mulheres lastimam e  os homens estão frouxos.

 

Qualquer vangido:

Mais açoites.

Ficar sem água.

Bem menos comida.

 

No meio do mar, quando não clamam, sonham.

Quando não choram, recordam.

 “ … é verdade! Conheci um homem, que soube pelo  tio do avô! Foi perto de minha terra que fizeram uma viagem até a Iwoku, a lua cheia. Quem chegou lá foi Aki, o menor de todos os homens dali. Nem homem era, era um menino, faltava muito caminho para trilhar. Aki era um menino baixo. O mais baixo de todos!”

Uma, acorrentada do outro lado, até entende a língua mas não ouve direito.

O do lado daquele que contava, não compreende mas gosta da melodia das palavras

Crianças atentas

… um dia resolveram que iam até a lua cheia e trazer perto da aldeia. Tentaram de todos os jeitos. Atirar lanças. Gritando. Pulando. Até que o mais velho dali deu a idéia de subirem uns por cima dos outros para tentar chegar à Lua. Ele também orientou que os maiores e mais fortes ficassem por baixo e os menores por cima. Mediram, testaram, confabularam e Aki foi escolhido o ultimo a subir.”

 

A que estava de costa para a porta, ri e lembra do pai. Do avó e de um tio distante.

O do outro lado enjoa, mas engole

A debaixo quer chorar.

Crianças em silêncio

Fizeram! Subindo um, subindo outro, mais outro e mais outro. Aki levou quase três dias para chegar na ponta. Chegou pertinho da Lua Cheia, tão perto que até ela pode estender a mão para ele. A pilha gemeu. A pilha tremeu e caiu. Ficou somente Aki agarrado na Lua. Iwokun trouxe o menino para sua casa. Deu comida, deu bebida e um lugar quente para dormir.”

 

O do chicote chega.

Ninguém encara.

Nem geme.

Oferece alguns chutes.

Belisca alguns seios.

Dá tapas leves em alguns meninos.

 

Xinga alto e ninguém se reconhece.

Cospe e sai.

Crianças distraídas com barulho do mar.

Ele conheceu todo o lugar. Se encantou. Sorriu e brincou muito. Mas um dia veio a saudade da aldeia. Das gentes de lá. Saudade tomou conta de tudo. A comida não mais era boa. A bebida estava meio azeda e o lugar de dormir não era tão quente. Pediu para Iwokun se podia voltar. A Lua premitiu mas não sabia como. Ia pensar e deu para Aki um pequeno ilù, tambor, para distrair o pensar. Aki gostou e começou a tocar.

 

O acorrentado sem dedo está preocupado.

A que tem muita sede recorda a toada de sua aldeia.

O do outro lado, não deseja mais pensar.

Crianças aflitas. Sentem fome.

 ”Um dia Iwoku veio com uma solução! Ela iria amarrar Aki e o tambor em uma longa corda. Devagarzinho iria descer até a aldeia. Assim que ele tocasse na terra, tinha que bater bem forte o ilù que ela cortava a corda. Aki aceitou, foi amarrado e começou a ser arriado, muito feliz em voltar. Na metade do caminho, bem em cima de uma grande montanha branca, ele viu uma moça. A mais linda, a mais bonita que seus olhos tinham pousado! Ela andava por lá. Ele chamou por ela, gritou e urrou, mas ela não ouvia. Até que resolver bater o ilù para chamar a atenção. Bateu uma vez, nada. Bateu outra, mais forte, e nada. Bateu a terceira vez, muito forte, Iwoku ouviu e cortou a corda.”

 

Nenhum respirar.

Nenhuma fala.

Alguém fora da vista soluça.

As crianças e o silêncio.

 

Diversos clamores.

Diversas orações.

Diversos chorar.

Diversas lamentações.

As crianças escutam.

 “Aki caiu. Chão duro. Caiu e morreu. Ficou ali o corpo e o ilú. Tempos depois, passando por ali outro menino, viu o tambor, pegou e sem saber como, tocou. Alto, forte, melodioso e encantador. Logo veio o povo todo e o som do ilú foi apreciado

 

Todos começaram a tamborilar.

Forte e firme até que o chicote recomeça a retumbar.

As crianças brincam.

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Sobre Plínio Camillo

Nasci em 26 de novembro de 1960. Aos três anos descobri que as letras tinham significados. Aos cinco, a interrogação. Aos nove, não era sintético. Aos 12, quis ser espacial. Aos 15, conquistei a exclamação. Aos 17 vi os morfemas. Aos 20 estava no palco. Aos 22 me vi como um advérbio. Aos 25 desenredei a Lingüística. Aos 27 redescobri as reticências. Aos 30, a juventude. Aos 35 recebi o maior presente: Beatriz Camillo, aquela que me trouxe a felicidade. Aos 40 desvendei uma ligeira maturidade. Aos 41 voltei para Sampa!!!. Aos 45, recebi o prazer de viver em companhia. Aos 50 anos, uso óculos até para atender telefone. Hoje: escrevo.

  1. Parabéns Plínio, muito bom!

  2. Você, Plínio, narra como ninguém a saga do nosso povo. Quero vê-los reunidos num livro!

  3. Nossa Plínio que história mais comovente, bela, rica de um povo tão sofrido! Gláuber tem razão: quero ver tudo reunido num livro. Parabéns amigo!

  4. Adoro essas lendas, retalhos da colcha da história real que muitos preferem ignorar

  5. Fernando Rocha

    Plínio, mesmo eu sendo negro, não sou muito a favor de panfletos inócuos, mas seu texto vai além, vai dentro do humano, da solidão e do deslocamento pertinente à qualquer sujeito.
    Inspirador!

  6. Daniela Batista

    Bem gostoso de ler o texto, por mais que os adultos estejam em
    conflitos e perigos as crianças apenas brincam,criança é sempre criança em qualquer lugar , adorei

  7. Linda história, Plínio, e muito bem narrada. Parabéns!

  8. Texto lindo e marcante – principalmente o trecho em que eles são jogados no navio. “Tão covarde” é o resumo perfeito da situação.

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