O auto da barca de sushi

A primeira vez que o diabo lançou uma oferta sobre minha nobre alma fugiu completamente do que eu imaginava para esse tipo de proposta. Meus poucos conhecimentos sobre o assunto se resumiam a uns dois ou três filmes de Hollywood. Mas o fato é que naquele domingo – veja só, domingo é um dia bastante improvável para o diabo tocar a campainha da sua casa-, ele chegou perto da hora do almoço, na companhia de seu assessor particular, com uma enorme barca de sushis simetricamente enfileirados sobre uma base de nabo ralado, intercalados por pássaros e flores esculpidos em cenoura e pepino. Por certo era o outro, o assessor, que carregava a encomenda, afinal, não é novidade nenhuma que o diabo é um cara possuído pela mais autêntica preguiça. Contudo, para que não se cometa injustiça, ainda que seja com alguém totalmente despreocupado com ela, ele se dava sim ao trabalho de carregar uma garrafa de saquê de setecentos e vinte mls debaixo do braço. Não era uma garrafa qualquer, dessas que a gente compra aos pares ao preço de doze reais para fazer caipirinha com os amigos no fim de semana, mas especificamente uma versão gold da marca Junmai Hakushika, um saquê com floquinhos de ouro, que não sai por menos de cento e cinquenta na Liberdade. Também não é novidade que o diabo não dispensa uma boa bebida, e por ela vence até a preguiça primordial. Eu estava bastante surpresa com minha reação, pois tinha plena consciência de como deveria me portar em uma situação como aquela, tive formação cristã: sinal da cruz, água benta, Pai-Nosso…, mas o fato é que eu só conseguia pensar se ainda havia um pouco de shoyu na geladeira, torcendo para que a dona Jaci não tivesse usado o restante do frasco na receita de yakissoba da última quarta-feira.

[continua em 20 de novembro de 2013]

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  1. Reginaldo

    Sinto você em cada frase dessa obra,
    você escreve bem poque se descreve bem,
    envolve, enlaça com seu chicote de mulher maravilha,
    cá entre nós,
    acho que o diabo gosta mesmo é de uma barca de…
    por isso serve sushi, quando vierem convida a dona Jaci.
    Parabéns!

  2. Aline Viana

    Ah, Denise!!!! Quero saber o fim da história, isso é tortura 😛

  3. Maria Esther

    Não conta não… rs
    Aliás, conta bem devagar… este é o tipo de história que eu não quero que acabe nunca…
    Beijos !

  4. um apoio da família é sempre bom. beijo gata!

  5. Sheila Boesel

    Me pegou pela primeira frase, coisa que não é incomum com teus textos!! Beijão, saudades!!

  6. quero continuar te pegando em novembro, Sheiloca! 😉

  7. Rei Shariar

    Prezada Sra. شهرزاد,
    Não estou disposto a esperar 2 anos, 8 meses e 26 dias para saber o fim desta história.

  8. Irreverência e suspense muito bem combinados. Estou esperando a sequência.

  9. Demorei mas me deliciei do começo até onde parou porque…francamente dona Dê! Fiquei com água na boca com essa barca que parece deliciosa e em saber o restante da história! Isso é coisa do tinhoso mesmo heim? Oras!!! Ficarei em cólicas até a próxima continuação.

  10. pra aplacar essa ansiedade, podemos marcar um sushi, Rose! 😉

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