Filha do Silêncio

Foto: Garry Knight

Foto: Garry Knight

A sorte, enfim, voltou. Sempre calada. Em seu rosto, discretamente, nota-se que está alegre. Ela acabou de encontrar, no meio do entulho, um colchonete. No início da tarde, numa lixeira do largo da Concórdia, foi abençoada com uma almofada. Expulsa do Parque Dom Pedro, aos poucos vai ajeitando o novo lar. A noite será mais confortável em sua nova tenda sob o viaduto do Gasômetro.

Não lembra a idade. Quem a vê pode achar que ela tem entre trinta, talvez menos, a sessenta anos, talvez mais. Os cabelos ouriçados com alguns fios brancos e a boca banguela deixam dúvidas.

De onde veio? Quais são os seus pecados? Quem foi seu pai, mãe, teve irmãos? Nem ela sabe quem é. Não lembra o nome. E nunca se questiona. Seus instintos apurados a protege, abriga, alimenta. Sobreviver é impreciso.

O único dia que reconhece é o domingo. Quando os carros somem das ruas do Centro. Aos domingos ela senta perto da entrada de alguma igreja. Não entra. Também não pede esmola. Ninguém nunca ouviu a sua voz. Ela olha para o rosto de cada um que sai da igreja. Parece procurar Jesus. Não o encontra ali. O que diria se encontrasse? Nada. Provavelmente ela se ajoelharia, em silêncio, aos seus pés e Ele, então, diria: levanta-te e fale, mulher, seus pecados foram perdoados.

Todos os outros dias são segundas-feiras. Sua lógica só a confunde nos feriados. Mas ela não se preocupa em distinguir os dias da semana, os meses, ano, horas, estações. Seu tempo é medido apenas em dia, sobreviver, e noite, sobreviver, nada mais. Sem passado nem futuro, o agora é o que, afinal, importa.

Ela não percebe. A última vez que se viu no espelho faz muitos anos. Seu olho esquerdo está inchado, quase fechado, bastante roxo. Não percebe a intensa dor latejar. Na madrugada gelada, enquanto seus instintos dormiam, o homem drogado chegou com chutes, após ela se levantar  recebeu um direto de direita…

– Vaza daqui!

Toda a violência era pela lona que a protegia da chuva, da fumaça dos carros. Pela velha panela, colher, copo, faca. Ela foi embora, claro, calada, sem levar ao menos um cobertor. Se ainda lembrasse as palavras, como dizer, falaria para o homem ficar com tudo, na boa, sem precisar bater.

Naquela tarde a sorte voltou. A sorte está mesmo com ela. Dentro da lixeira sua mão apalpa a metade de um cachorro-quente, de duas salsichas, no pão recheado com purê de formigas.

– Formiga é bom pras vistas – ela fala! Viva!

Mas quem se importa? Ninguém nunca a ouviu.

Anúncios

Sobre Gláuber Soares

Gláuber Soares mora em São Paulo. Formou-se em Jornalismo, mas o seu maior erro foi comprar um All Star de cano alto e cor roxa pensando levar azul-marinho. Skatista calhorda, nos finais de semana é possível encontrá-lo no litoral sul, ao pé da serra do Mar, numa casinha verde, próxima do Rio Negro, à procura dos tons que não enxerga. Participou das coletâneas de contos: Abigail (2011), Dos Medos o Menor (2012) e A Arte de Enganar o Google (2013) – todas pela Terracota Editora. Em 2014, também pela Terracota, lança sua coletânea de contos Remédio Forte. Também bloga em glaubti.wordpress.com E-mail: glaubersoares@terra.com.br

  1. Que texto bárbaro amigo! A marginalidade do ser humano pincelado com duro lirismo. A vida como ela é.

  2. Meu querido: belo texto!!

  3. Muito emocionante!!!!!!! A felicidade é mesmo relativa… Acertou de novo! um beijo!

  4. Eder Santin

    Salve, Glauber. Muito bonito. Tema cada vez mais presente: a invisibilidade do outro, a falta de compaixão. Abração.

  5. Foi lá no coração da dor Glauber. Um cachorro quente com duas salsichas e purê de formiga. De fudê parceiro. Acertou!!!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: