Cavalos-marinhos

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Subindo a avenida Rebouças pela manhã, cercada por carros e pessoas, uma sombra desceu sobre mim. Feito chuva ácida, sua lembrança um pouco desbotada entrou feito flecha no coração. Acertou no alvo abrindo uma ferida que já se encontrava cicatrizada.

Sangrou.

Por mais que tentasse prestar atenção no trânsito e nas mudanças da marcha do  carro, me desconcentrei por completo. E para piorar ainda mais, no rádio começou a tocar a música Vento no litoral do Legião Urbana.

Covardia.

“Agora está tão longe
Ver a linha do horizonte me distrai
Dos nossos planos é que tenho mais saudade
Quando olhávamos juntos
Na mesma direção
Aonde está você agora

Além de aqui dentro de mim…”

As comportas se rompem, meus olhos transbordam. Não enxergo mais nada a minha frente a não ser sua imagem. Que continua desbotada.

“Já que você não está aqui
O que posso fazer
É cuidar de mim
Quero ser feliz ao menos
Lembra que o plano
Era ficarmos bem…”

Tenho de parar o carro antes que cause um acidente. Busco o acostamento, não encontro. O trânsito às 7h45  é uma loucura. Entro na Frei Caneca e estaciono meio que às cegas ao lado da construção do metrô.

Choro como há muito não chorava. Deixo as lágrimas percorrerem meus rosto livremente. Não as impeço.

Engraçado…acredito que chorei mais até do que quando partiu. Lembro que na época me fiz de durona. Banquei a forte. Chorei depois, escondida.

Mas hoje, dei total vazão a dor, a saudade.

Vou chegar atrasada no serviço. Não importa. Que descontem no meu holerite.

“Eieieieiei!
Olha só o que eu achei
Humrun
Cavalos-marinhos…”

Choro mais ao ouvir esse trecho da música e lembrar que você também me mostrou cavalos-marinhos e disse que achava-os lindos!

Ai Deus! Não aguento mais ouvir essa canção. Dói demais as suas lembranças. Já faz tanto tempo que se foi.

Nunca admiti nem para mim mesma mas sinto tanto sua falta. De nossas conversas, de seu carinho, de sua proteção.

A música acabou e levou minha dor embora. Uma nova canção iniciou.

Enxugo minhas lágrimas. O turbilhão cessou.

Olho pelo retrovisor, engato a marcha e sigo para a realidade que me chama. Meus pensamentos seguem aleatórios até que me dou conta da data de hoje.

É seu aniversário pai.

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Sobre Roseli Pedroso

Roseli Pedroso nasceu em 1963, em Osasco (SP). Bacharelada em Biblioteconomia pela FESPSP, é bibliotecária escolar. Viver entre livros e palavras é sua grande paixão. Em 2011, participou pela primeira vez em uma antologia de contos, Abigail, publicada pela editora Terracota. Também participou das coletâneas Corda Bamba e Ocultos Buracos, ambas da Pastelaria Studio, de Portugal. Faz parte da coletânea Descontos de fadas, da Alink Editora. Lançou seus contos Recortes de vidas e suas crônicas Receituário de uma expectadora, ambos pela Scenarium. Colaborou no site: http://melecachiclete.blogspot.com.br/ Seus blogs: http://bibliotequiceseafins.blogspot.com http://sonhosmelodias.blogspot.com

  1. Lembrou-me de outros choros!! Belo texto!!

  2. Engraçado a violência com a qual uma canção pode nos surpreender em alguma parte do dia.
    O instante já desenhado com palavras. Se na canção o vento leva tudo para longe, espero que a fumaça do trânsito tenha feito tal transporte.

    • Fernando obrigada pela visita e comentário. Concordo com você, a música tem esse poder de nos arremessar a lugares que jamais imaginamos no dia a dia.Não vivo sem ela. Abraço!

  3. Puxa, Roseli, adorei como você estruturou a narrativa. Durante todo o tempo eu pensei que fosse uma relação amorosa, e só no final você revela que é uma relação paternal. Lindo mesmo.

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