História para Ioio dormir …

EscravaamamentandoImagem de Vander Silva

 

O Ioio, o mais novo, ainda resistia.

O pequeno omadê ainda queria brincar.

Gritar.

Bater nos pretinhos.Quinemaminhamãe!!

 

Paciente, como o chicote manda, Núbia veio devagarinho.

Com a autoridade de ama-de-leite dele, pegou pelo mão.

Ele mordeu.

 

— Vou contá uma história, vem.

 

O mais velho foi correndo.

O Ioio puxou pelo vestido velho, rasgou.

Ficou com os peitos de fora.

A senhora olhou com repreensão. Tinha certeza que depois iria apanhar.

O senhor olhou com cobiça. Tinha certeza que depois seria apanhada.

 

Deitaram.

Ioio deitou no seu colo e pegou os seus seios.

 

— Conta… conta … conta … preta velha!!! Conta logo!! — com a boca cheia de leite

 

Muito tempo atrás, na terra de meus pais, havia uma guerra de duas tribos, os zulus e os ndwandwes. O motivo da guerra ninguém se lembrava.

Ou era por causa de terras.

Ou de dinheiro.

Ou por causa de um amor recusado.

Ou apenas por não ter o que fazer.

Uns diziam que os outros fediam.

Outros diziam que os uns cheiravam mal.

Mas era um tempo de guerra.

Guerra de apenas para vencer.

 

Um dia, o pequeno Shaka, da tribo Zulu, foi brincar perto de uma lagoa com a lança que havia ganho do irmão do seu pai.

Aproximou caçando grandes feras invisíveis. Até que viu, deitado ,um outro menino: Zwide, da tribo dos ndwandwe.

 

Que fazer?

Fugir?

Porém antes de Shaka voltar: eles se viram.

Será que iriam brigar?

Lutar como os seus?

Batalhar pelos seus?

 

— Que você esta fazendo?— perguntou Shaka enquanto planejava a retirada.

— Olhando … — disse meio sorrindo o pequeno Zwide — gosto de vir aqui,sabe?

— Também …

— Vai querer lutar?

— Não sei …e você?

— Também não sei …acho que não.

— Duvida que eu acerto aquela árvore ali?

— Mostra.

 

Shaka atirou a lança. Acertou e o Zwide foi buscar.

— Atira você agora.

— Tá!

Atirou e Shaka foi buscar.

Ficaram assim por horas.

Atiravam enquanto falavam dos sonhos e da vontade de crescer. Das terras para conhecer e das frutas que queriam saborear.

 

Depois pescaram com a lança.

Contaram histórias.

Falaram mentiras.

Brincaram até ficarem amigos.

 

Chegou a hora de ir embora!

Fez o silêncio.

Shaka disse até. O da aarọ!

Zwide disse até. O da abọ!

 

Andaram alguns passos e viraram para outra despedida.

Shaka voltou correndo.

Deu a sua lança para Zwide.

 

— Para lembrar de mim.

— Para lembrar de nós.

Mo dupé ! — agradecem ao mesmo tempo e correm para os seus lados.

 

Tempos depois o irmão de seu pai voltou e pediu para ver a lança.

 

— Dei para um amigo meu.

— Quem?

— Amigo…

— Quem?

— Zwide.

— Um dos ndwandwe?

— Ele é sim!

 

O pai gritou

A mãe chorou.

A irmã puxou os cabelos.

O irmão do pai blasfemou.

 

— Tonto!! — disse o irmão do pai — da próxima vez enfie a lança no peito dele

— Não! É meu amigo!

—Nunca!! Com certeza da próxima vez: vai enfiar a sua lança em você.

 

… e Ioio não ouviu o final da história.

 

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Sobre Plínio Camillo

Nasci em 26 de novembro de 1960. Aos três anos descobri que as letras tinham significados. Aos cinco, a interrogação. Aos nove, não era sintético. Aos 12, quis ser espacial. Aos 15, conquistei a exclamação. Aos 17 vi os morfemas. Aos 20 estava no palco. Aos 22 me vi como um advérbio. Aos 25 desenredei a Lingüística. Aos 27 redescobri as reticências. Aos 30, a juventude. Aos 35 recebi o maior presente: Beatriz Camillo, aquela que me trouxe a felicidade. Aos 40 desvendei uma ligeira maturidade. Aos 41 voltei para Sampa!!!. Aos 45, recebi o prazer de viver em companhia. Aos 50 anos, uso óculos até para atender telefone. Hoje: escrevo.

  1. Plínio, vc tem que publicar urgente um livro com esses contos e antes de esgotar a tiragem guarde o meu.

  2. Concordo com o Gláuber. Dá gosto mergulhar nesse universo rico de suas histórias.

  3. O ser humano sempre competiu, não importa a época, nem a cor, nem a tribo. Bacana como você vem se abrindo para a poesia.

  4. PQP… Plínio, seu sagitariano (como eu), das Letras (como eu): vc é fantástico!! Por favor, lance um livro logo!! \o/
    Beijo meu.

  5. Esta série está mesmo ótima. Parabéns!

  6. Concordo com todos: a série é ótima, você está cada vez melhor, está mais poético e tem de lançar logo esse livro!

  7. Maria Adélia Piquet Gonçalves Menezes

    Nossa… bonito, poético! Detalhes que revelam nossa história e nos tocam sobre o sentido dos conflitos entre povos. Um mergulho no passado, nossa história! Uma reflexão sempre presente! Um desejo para o futuro: Contar histórias lindas como essa! Obrigada!

  8. Luiz A. Bonini

    Olá Plinio – novo véio de guerra. Acho que melhor que este conto, só mesmo um prato de macarronada com tubaina comido no domingo na casa da vó. A última garfada dessas foi lá por 1965. Depois, a vó se foi, o macarrão virou vilão pra cardíaco e a tubaína que existe por aí é muito chinfrim, meide in Paraguai. Por isso que teus contos ainda conservam sabor. Sabor de coisa boa. Até o próximo. Ah! Feliz dia, criança!

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