Eis o mundo de fora (Cap XIX)

adrienne_myrtes

Um hospital é uma hospedaria indesejável. A dor é indesejável, velhice, a doença como anexo e são coisas que um hospital representa.

Lurdinha entrou com minha avó na sala para fazer os exames. Preferi ficar do lado de fora, Luis ao meu lado. Nem sei por que fiz questão de vir junto, nunca tive a intenção de me envolver de verdade com a situação. Ao menos em consciência. Pode ser que eu tenha uma ligação atávica com a dor de minha avó e me sinta obrigada a acompanhar, nem que seja pela fresta da porta. Luis ficou comigo e segurava minha mão. Em silêncio. De alguma maneira era um conforto para mim.

Nascemos da dor, por isso, a sós, e levamos a vida fugindo da solidão. Talvez porque ela represente o retorno a nossa dor primeira. Faz parte da estupidez dos homens agruparem-se em busca de consolo. Não quero consolação. Acho mais fácil lidar com a dor, ela, a única certeza que tenho. Morrerei só como qualquer ser humano e mesmo assim a mão de Luis sobre a minha era bem-vinda, quente. Também sou estúpida. Somos assim e não me eximo do pecado de nascer humana. Apenas faço questão de enxergar fenômenos que a maioria prefere não ver, por conforto ou delírio.

As duas mulheres que acompanhei e que entraram lado a lado na sala de exames eram, a despeito de terem dividido comigo parte de minha vida, duas desconhecidas. Como eu mesma me mantenho desconhecida para mim. Com o dedo indicador da mão direita escrevi sobre a mão direita de Luis que segurava a minha mão esquerda: exílio. Luis, olhando para mim, era um desconhecido a quem eu conhecia um pouco mais. Ele e eu vivemos ombreados na decisão de aceitar que não sabemos quem somos.

Arranquei meus olhos de Luis e mirei em volta, ali estava a matéria que nos constrói. Os corredores e enfermarias hospitalares estão plenos desse material. A fragilidade da vida exposta em tendões e artérias, o apodrecimento do sublime. Ou a sublimação do apodrecimento.

Uma mulher velha saiu por uma das portas e encheu meu campo de visão com seu andar curvado. Lento. Pés arrastados. A acompanhante amparava sua dificuldade e segurava no alto a bolsa de soro. Aquela mulher também não sabia quem era.

É preferível a angústia de não saber quem sou às certezas escritas por outros: identidade coletiva. Desconfio da luta de classes, dos guetos, dos grupos étnicos. Um ser humano é sempre e apenas um ser humano. Um animal que desconhece sua origem e se sente só. Por isso procura grupos, pretendendo forjar uma identidade no coletivo. Coletivo esse que para alguns é a família. Como se ela fosse lhe dizer quem é e a que veio. Como se adiantasse saber quem é e a que veio. Como se isso pudesse diminuir a solidão. Como se a solidão não fosse o que temos de mais caro e verdadeiro. À merda com a coletividade.

À merda comigo e com esse tipo de pensamento infrutífero, porque raciocinar por esse caminho é me afastar da química. É abandonar o que nos constitui. Carne e sangue. Uma combinação de músculos cobertos por camadas de tecido epitelial e sustentados por ossos. Uma combinação absurda de sólidos e líquidos que brigam por territórios em comum e produzem feridas e secreções em sua luta.

A velha passou por nós, a camisola hospitalar aberta nas costas, uma bunda murcha, triste, envergonhada de sua condição aparecia à medida que ela caminhava. O tempo faz questão de nos humilhar e nos mostrar que no final somos muito pouco. A humanidade é um grão de poeira dentro do corpo do universo. Uma sujeira embaixo da unha talvez. E cada pessoa é nada e carrega sozinha sua porção de nada.

Mesmo assim a mão de Luis permanecia quente, trançada na minha e era bom.

Lurdinha voltou com a notícia de que minha avó estava em processo de desidratação. Sob prescrição médica, tomaria uma bolsa de soro.Também ela. Ocorreu-me que o soro parecia crachá de hospital. Isso significava passar um tempo a mais perturbada por aquele cheiro. Se eu quisesse poderia ir embora, ela ficaria. Se eu quisesse não teria vindo, nunca primei pela coerência. Mandei Lurdinha de volta para casa junto com Luis, fiquei para acompanhar minha avó.

Éter. Hospital cheira a éter. Será para nos lembrar que a vida está evaporando? A sala de medicação era apertada, o líquido brincava de cair de-va-gar-zi-nho. Fazia suspense. Se eu estivesse no lugar de minha avó sentiria vontade de arrancar a agulha do braço e fugir dali. Minha avó já não tinha pressa. Mantinha os olhos semicerrados igual a um monge em meditação. No pescoço a pele sem elasticidade emoldurava veias e dava notícias da pulsação alterada. Ela se incomodava por estar ali. A mim, incomodava comparar o que eu conhecia dela com o que eu tinha em minha frente, na maca, ligada por um equipo a uma bolsa burra que pingava sem vontade. Os pingos de soro furavam minha paciência. Paciência é a lição de Cronos, o tempo. O senhor das transformações e do milagre da oxidação. O desenhista. Minha avó era um trabalho do tempo. As manchas mais visíveis no colo e nos braços pareciam pontos de ferrugem que iam se alastrando por ação do ar. Léa já começava a partilhar daquelas manchas, até isso Dona Auxiliadora dividia com ela. A textura da pele, fina, lembrava seda, dobrada, sobrando sobre os ossos. Passei a ponta do dedo pelo braço estendido dela. Quase sem tocar. Também o toque me lembrou seda. Lembrei-me da atitude de passivo constrangimento com que ela aceitou que eu ajudasse Lurdinha a lhe dar banho.

Minha avó viveu magra a vida inteira, mas onde se escondeu a musculatura que havia sob a pele? Consumiu-se como combustível? Mesmo a cor dos cabelos, o brilho agora apagado. O que será que a vida faz consigo procurando se manter? Isso nem imagino. Minha avó abriu os olhos e me flagrou acariciando seus cabelos. Tirou os olhos de mim para a bolsa de soro e tornou a fechá-los. Respirou fundo. Respirei fundo. Por uma fração de vida dividimos os mesmos átomos de oxigênio.

Minha avó não me diria quem sou porque também ela não sabia quem era. Mas ela partilhava comigo o sonho de família e eu devia a ela esse sonho. Eu devia a ela um sono tranquilo após dias turbulentos. Continuei acariciando seu cabelo. Algum dia o meu também teria aquela textura amarga. Pode ser que haja alguma força centrípeta que nos jogue na direção do núcleo familiar. Para buscar nosso início. A sofisticação da ideia de família criada pelos homens nos conduz a isso? Ou seria o princípio da hereditariedade imposto pela seleção natural? Darwin nos condena. Ou nos redime. Não posso me eximir do pecado de pertencer à raça humana. A estupidez humana é de minha propriedade, e, por vezes, é ela quem me salva de minha dor.

Adrienne Myrtes nasceu no Recife/Pernambuco e vive em São Paulo desde 2001. É também artista plástica. Participou das antologias: Os Cem Menores Contos Brasileiros do Século (Ateliê Editorial, 2004), 35 Segredos para Chegar a Lugar Nenhum – Literatura de Baixo-Ajuda (Bertrand Brasil, 2007) e Assim Você me Mata (Terracota, 2012), entre outras. Publicou: A Mulher e o Cavalo e Outros Contos (Alaúde e EraOdito, 2006) e O romance Eis o Mundo de Fora (Ateliê Editorial, 2011).

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  1. Me identifiquei muito com o texto. Nossa dor às vezes só é amenizada por uma boa dose de estupidez. Adorei! Forte abraço!

  2. Gracias, Cris Campos! Forte abraço!

  3. Plínio Camilo, querido, fico prosa com esse seu comentário. Beijo.

  4. A dor da vida se esvaindo nesse texto viceral.

  5. “Ele e eu vivemos ombreados na decisão de aceitar que não sabemos quem somos.”
    Alguém sabe? Nos buscamos. Nos vãos: no máximo, nós. Lindo o texto! Me emocionou, de verdade.

  6. Amo seus textos e sua narrativa poética. Vontade de marcar tudo com marca-texto amarelo e deixar o livro todo colorido!

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