A ilha do dia anterior

Havia um barulho de moedas
despencando na noite
e o bater de asas desarmônico das moscas
o azul terno das moscas moribundas.
Pareciam sinos entoando tristes melodias
e eu pensava em partir,
ouvindo o apito urgente dos navios,
embora não houvesse portos nos arredores
nem sonhos despedaçados de velhos marinheiros.
As coisas não acabam quando terminam – desterros,
precisam se acostumar  com a solidão dos relógios parados,
dos pêndulos desnudos – A crônica da casa assassinada
com a sublimação agonizante das naftalinas.
os objetos se desfazem antes ou depois
se espremendo numa verdade inventada,
Partida –ficção e traças…
Pinto o rouge et noir
dos morangos mofados
lagartas sem metamorfoses
queimando o oco do meu peito
– ensurdeço.
A gosma branca da solidão
anda feito lesma no meu dorso
um resto em retardo do seu gozo.
Hoje,
tétano nos meus olhos enferrujados
de tanto ver.
A dor é uma crosta espessa
falsos moluscos enrodilhando minha pele
Peixes estripados.

 

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Sobre marciabarbieri

Literatura e artes

  1. A solidão lírica de Marcia Barbieri, dói na alma, mas é bela!

  2. Concordo com o Gláuber. Dói mas é de uma beleza indescritível.

  3. Márcia, acho de uma coragem enorme escrever poemas em nosso tempo, como a sua prosa já é algo híbrido, o que muda é o ritmo ditado pela versificação.
    Ao contrário dos Gláuber e da Roseli, não acho beleza alguma na dor, sinto o desolamento daqueles que têm os sentidos despreparados para lhe dar com o mundo embrutecido, e por isso sentem tudo em estado bruto.

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