Minha Princesinha

Arte: allthecolor

Arte: allthecolor

Não me canso de olhar pra ela. Essa menina é linda. Dá vontade de abraçar, apertar, levar pra casa. Muito alegre. Uma princesinha. Hoje eu levo ela pra casa. Repare os cabelos, boca e unhas pintadas, de relógio, brincos, parece mulher feita.

Consegui estacionar a Brasília perto da esquina. Quando ela passar digo que a sua mãe me mandou buscar. Não posso dar tempo pra moça, que sempre a acompanha, pensar. Entrego este bombom de chocolate pra menina. Enfio ela dentro do carro, antes da moça entrar eu arranco. Agora não tem trânsito, em menos de quarenta minutos estaremos no meu cafofo, na Serra da Cantareira.

Faz uns dois meses que invadi a edícula abandonada. Ali é tranquilo, ninguém me acha. Coloquei pra fora os morcegos. Matei as aranhas, exterminei os escorpiões, baratas. Varri o que deu pra varrer. Falta pintar as paredes sujas, trocar as telhas quebradas, a mulher do tempo disse que no final da tarde vai chover. Deixei os brinquedos espalhados na sala. Sete anos, apesar dessa molecada só brincar de celular, ela vai se divertir com as bonecas, gibis, o pé de goiaba.

Macaco bugio, quati, esquilo: têm muitos bichos na Cantareira. Ainda não conheci criança que não goste de animais. Vou mostrar tudo pra ela. Nessa quebrada, no meio do mato, não tenho vizinho. João-de-barro, risadinha, maritacas, só ouço os pássaros. Melhor assim. Cansei de vizinho cagueta. A menina vai dormir ao meu lado. Dividiremos o colchão. Tem bolacha recheada no armário. Também comprei balas. Cuidarei bem dela.

A moça hoje tá demorando. Melhor eu ir lá. Conto uma história pra segurança da portaria e saio com a menina. Vai ser fácil. Ninguém ganha de mim na lábia. Meu cabelo tá assanhado, melhor pentear. Terno e sapatos sujos, mas dá pra disfarçar. Precisava fumar outra pedra. A boca tá seca, ainda não tomei uma cachaça. Ahh, peraí… o corno veio buscar ela. Que mané!, vacilei. Devia ter ido logo que vi a menina no portão. O pai apareceu… é ele o pai, pai é quem cria.

– Estou gravida de você, Juvenal.

– Que isso, Ana, se liga. Deve ser do seu marido ou de outro homem.

– Ele é estéril. E eu nunca tive outro homem. Vamos embora daqui. Tenho uma tia no interior. A gente pode viver muito bem lá.

– Tá maluca? Não vou largar a minha família por sua causa. Quem mandou não se cuidar? Se vire. Vá tirar. Procure uma clínica. Quer saber? O problema é seu.

Não larguei a minha família, não, mas todos me abandonaram. Fiquei só. A mulher e os dois moleques sumiram. Levaram até o meu Duque. Enquanto era só a bebida me aturava, depois veio a cocaína, o crack, desemprego, polícia, ela não aguentou toda a parada. Sem pagar aluguel, tive de entregar a casa. Rua do Triunfo, Barão de Limeira, Praça Princesa Isabel, passei a morar nas calçadas mais imundas de São Paulo. Agora eu quero começar uma nova família com a minha filha, mas o pai dela – pai é quem cria – hoje cortou o meu barato. Após a menina nascer, o pessoal lá de casa já tinha sumido, fui conversar com a Ana, da gente mudar pro interior, morar com a sua tia, eu assumir a criança, ela virou crente. Disse que o marido perdoou seus pecados e não era para eu voltar a procurar. Como não sou homem de correr atrás de mulher, elas que corram atrás de mim, passei esses anos de longe. Olha lá a menina, como ela é linda, alegre, indo com… o seu pai – pai é mesmo quem cria.

Mas amanhã eu estarei aqui novamente, esperando a minha princesinha.

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Sobre Gláuber Soares

Gláuber Soares mora em São Paulo. Formou-se em Jornalismo, mas o seu maior erro foi comprar um All Star de cano alto e cor roxa pensando levar azul-marinho. Skatista calhorda, nos finais de semana é possível encontrá-lo no litoral sul, ao pé da serra do Mar, numa casinha verde, próxima do Rio Negro, à procura dos tons que não enxerga. Participou das coletâneas de contos: Abigail (2011), Dos Medos o Menor (2012) e A Arte de Enganar o Google (2013) – todas pela Terracota Editora. Em 2014, também pela Terracota, lança sua coletânea de contos Remédio Forte. Também bloga em glaubti.wordpress.com E-mail: glaubersoares@terra.com.br

  1. Gláuber que história! Soube comandar muito bem pois pensei que fosse uma coisa e no final me surpreendi com outra.. Muito bom mesmo!!!

  2. U-al! Surpreendeu-me no final. Muito bom!

  3. Personagens de carne e osso. Se cortássemos essas palavras, elas sangrariam!

  4. Alene Lins

    Primo, parece uma cena de filme que mistura terror, suspense, vira drama e depois a gente respira aliviado, porque é sim, um bom conto de ler…

  5. Legal como o início sugere uma outra coisa que não tem nada a ver com o final. É como se o texto fosse erguido e implodido e da implosão nasce um outro texto-devir com sentimento de ternura da personagem-narradora.

  6. Aline Viana

    Gostei muito do texto, principalmente porque você brinca com as expectativas do leitor. Parabéns 😉

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