Sentença

“De morte cruel padeceu meu Jesus na cruz”. Foi na segunda mordida no pastel de queijo que a frase veio do nada à cabeça de Tiago. Não foi bem do nada. No meio da feira, onde foi comer pastel com o amigo de trabalho, duas senhoras lembraram a sua avó. Elas falaram da pressão alta, do diabetes, das dores na coluna e combinaram, mais à noite, de irem juntas a um terço na casa da vizinha. Foi quando Tiago lembrou “de morte cruel padeceu meu Jesus na cruz”. Ladainha rezada nos terços em que ia com a avó quando era menino de uns sete anos de idade.

Ficava no quintal brincando com outras crianças, mas sempre era fisgado por “de morte cruel padeceu meu Jesus na cruz”. Não sabia direito o que era ser cruel, também não tinha muita noção do que era a morte, mas tão menino entendia que aquilo não tinha nada de bom e tinha pena de Jesus. Talvez, por isso, quem sabe, anos mais tarde resolveu fazer direito, pensando em salvar inocentes de destino cruel. Acabou no departamento jurídico de um grande banco. Não salvava inocentes, mas o salário era muito bom e a empresa tinha um ótimo programa de cargos e carreira.

Entre esse pensamento e outra mordida de pastel, desta vez num pedaço sem tanto queijo, o amigo perguntou o que ele achava. Sim, o que Tiago achava.

– Como assim?

– Como assim, como assim. O que eu faço?

– Não sei, cara, acho que você deve partir pra outra.

Pronto. Assim, simples, sem rodeios, direto. Parte pra outra. Podia não ser o melhor conselho, mas, pelo menos, era um clássico das recomendações para os amigos de coração partido. Sem falar que encurtava a conversa. Se bem que, se partir pra outra fosse fácil… E como Tiago sabia disso. Ele mesmo já havia sentido na pele. Ele mesmo tinha perdido as contas de quantas vezes ouviu esse conselho alguns anos atrás: parte pra outra. Mas uma mordida de pastel e, dessa vez, veio junto um fio de queijo quente.

– Ela não gosta de você cara. Se gostasse não tinha feito o que fez.

Eis o óbvio que o amigo não conseguia ver. Já era a quarta, não, talvez a quinta ou sexta vez que ele ouvia a mesma história. Corações partidos também gostam de repetir várias e várias vezes a mesma ladainha. Com ele também foi assim, lembrou. Faz parte. Era doído.  Era como usar uma coroa de espinhos no coração. Era como se precisasse ouvir da própria boca situações que até mesmo pra uma criança não haveria dúvida: parte pra outra.

Deixou o amigo repetir a história. A noiva, faltando sete meses para o casamento, pediu um tempo, mas continuou ligando pro amigo, dizia sentir saudades, dizia sentir falta, dizia que adorava, mas precisava do tempo. Foi assim uns dois meses até que a noiva voltou, mas voltou para o ex-anterior ao amigo. Mandou um torpedo avisando que não daria mais. Só. Simples assim.

Jesus, o Filho de Deus, teve morte cruel por tão menos, pensou Tiago. Uma última mordida e acabou o pastel de queijo. Devia ser crime inafiançável brincar assim com coração alheio, pensou Tiago. Morte por beliscão em meio à multidão, pra quem brinca assim com coração alheio, pensou Tiago. Morte cruel merece quem faz assim com o coração dos outros, pensou Tiago. Morte cruel merece.

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Sobre sandrareginasantos

Nasceu em Londrina

  1. Sandra amiga, gostei demais desse texto! Ninguém deveria realmente padecer desse mal. Parabéns!

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