Esqueci(da) vida

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Quarta-feira, 19h45

Entro na sala de estar e paro por alguns instantes. A sala se encontra escura. Não me incomodo. Sento. Minhas pernas pesam toneladas.
…Não sei quanto tempo me encontro assim, sentada na beira da poltrona, ainda no escuro.

Ouço o passarinho da vizinha do 208 cantar uma melodia que me emociona mas causa uma espécie de tristeza.
Tenho tido vários momentos de tristeza misturada a uma saudade de nem sei o que.
Já tentei entender essa sensação que aflora em meu peito.
Não consigo defini-la. Sei lá! Deve ser passageira.
Quinta-feira, 23h11
Não consigo dormir. Dei de passar horas infindas com os olhos secos de tanto mirar o nada. Não tenho mais paciência para ver TV.

Não entendo muito bem esses programas.

Quase não saio mais.

Peguei medo de sair quando escurece. Não que tenha medo da escuridão. Não! Mas tenho medo de quem anda na escuridão com ideias erradas para fazer com a gente.

Outro dia, fui abordada na esquina de casa quando voltava de uma apresentação no Teatro Municipal. Estava na companhia de Celeste e Carmencita até o prédio onde elas moram. Depois segui sozinha e quando cheguei à esquina, surgiu um moleque sem vergonha que me empurrou e levou minha bolsa de mão. Infeliz! Nem carregava muita coisa, mas o que era meu era meu e ponto! Não tinha o direito de levar! E ainda por cima fiquei com hematomas horríveis no braço e nas pernas…
Sexta-feira, 12h23
Já faz um tempão que estou com essa espátula na mão e não sei por que a peguei. O que é que eu ia fazer com ela mesmo? Ah! Sei lá. Vou deitar um pouco. Dar um descanso a esse esqueleto que pesa horrores.

– Hum!! Nossa que cheiro de queimado. Manhê tá queimando algo no fogo?

-Não! Mas…Ai meu Deus! O apartamento da dona Helô tá pegando fogo! Jurandir liga pro sindico que eu ligo para os bombeiros. Rápido homem!
Sábado, 15h48
– Coitada! Não merecia uma morte assim! Teve uma vida inteira dedicada ao marido e filhos e quando mais precisou, não teve o carinho nem a paciência deles.
– É…desde que seu Antônio morreu, Helô ficou sem chão. Sua vida inteira foi se dedicar a esse marido que também fazia tudo por ela, mas que não a preparou para uma vida solitária.

– E ainda sofrer com a indiferença das noras, dos netos que viviam chamando de velha gagá.
– Já tinha reparado que ela andava bem esquecidinha, perdida. Até procurei o Ernesto, seu filho mais velho e o alertei que deviam dar mais atenção a ela. Sorriu amarelo pra mim e falou que já faziam o melhor por ela. Pagavam um ótimo convênio médico e não deixavam faltar nada no apartamento da mãe. De resto, não podia fazer nada, pois sua vida de alto executivo não permitia que se dedicasse à mãe.
– Coitada da Helô, minha amiga querida de tantas décadas. Sua cabecinha lhe pregou a última peça levando-a a deitar esquecendo o forno ligado. Não sobrou praticamente nada intacto. O fogo tomou conta de tudo e ainda se espalhou pelos apartamentos vizinhos. Maldito Alzheimer!
– Envelhecer minha amiga Carmencita, vou falar o português bem claro  preste atenção:  É foda!!! Você se torna invisível na maioria das vezes e inconveniente quase sempre.

– Vamos embora . Em homenagem a nossa querida e meiga companheira, vamos tomar uma bebedeira das bravas lá em casa. Helô não merece lágrimas, mas sim alegrias para ajuda-la nessa nova caminhada que iniciou.

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Sobre Roseli Pedroso

Roseli Pedroso nasceu em 1963, em Osasco (SP). Bacharelada em Biblioteconomia pela FESPSP, é bibliotecária escolar. Viver entre livros e palavras é sua grande paixão. Em 2011, participou pela primeira vez em uma antologia de contos Abigail, publicada pela editora Terracota. Também participa das coletâneas Corda Bamba e Ocultos Buracos, ambas da Pastelaria Studio, de Portugal. Colabora no site: http://melecachiclete.blogspot.com.br/ Seus blogs: http://bibliotequiceseafins.blogspot.com http://sonhosmelodias.blogspot.com

  1. Oba!!! O que me pegou foi: Envelhecer é foda!! Belo texto Roseli, o início está primoroso!!

  2. É a vida, né? Seu texto é emocionante sem ser piegas. Gostei!

  3. É, Roseli, um conto ou não é a verdade. Somos solitários no mundo, não adianta! Pior que isso é ser solitário acompanhado, aí é foda mesmo!
    Mas será que existe alguma forma de nos prepararmos para viver só? Acho que não… é tão triste..

    Muito bom, menina!
    Beijos

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