João Criolo

castigo3

Imagem: Debret

O misericordioso padre espantou em ver o negro faiscador tentando ficar de pé.

O experiente médico ficou nauseabundo ao sentir o cheiro das ulceras purulentas misturadas com a bosta de cavalo.

— Só quero morrer em pé

João tinha sido torturado.

Acoitado.

Flagelado.

Golpeado.

Arrastado pelas ruas.

Mas não contou nada.

— Devo ser importante: dois ilustres vinheiram me ver! — fez a graça sem rir.

O padre batalharia para João confessasses os seus pecados veniais, capitais e onde a sua corja estava escondida.

Já o aplicado médico desejava que apenas balbuciasse onde havia escondido o lendário tesouro.

E o negro foi ficando de pé.

Pingando sangue, terra e baba.

João confessou  sim que sentia saudades do tempo de menino.

Dos matos.

Dos rios.

Dos barulhos.

Das histórias das terras dos seus.

Das rezas ensinadas pelo Frei das Neves.

— Sou João Criolo, filho de Jeremias Congo e Maria Criola — tossiu e uma chaga vazou

O bondoso padre pediu declarasse todos os pecados.

O atencioso médico pensou em ir embora, o dia estava tão bonito!

— Meu pai morreu rapazote, sabe? Disenteria! Minha mãe louca de tanto trabalhar no frio, mas teve para me ensinar o caminho do bem, sabe moço?

Contou, voz molhada, que tinha saudades do tempo de andar de cabeça erguida pela vila.

— O meu senhor, o finado Frei das Neves, era muito bondoso!!

Mencionou meio rindo e meio lamentando que o obedeceu o seu senhor e foi garimpar nas terras reais.

Ali foi preso.

Não fugiu: Homem não corre de homem, já dizia a minha mãe.

Ficou pertencendo ao rei. Um novo senhor de muitas vozes e sem um único rosto.

Ficava sobre o chicote dos fulares. De manhã, de tarde e antes de dormir.

Toda a tarde tinha palmatória.

— … mas me chamarem de moleque, num agüentei, moço!!

Riu.

Vazou.

Tossiu.

O padre se benzeu.

O médico sentiu fome.

— Também prometeram ao meu senhor podia voltar. Mas não cumpriram. Nada pesa menos que uma promessa, não é?

Fugiu.

Foi para onde mais conhecia: as minas.

Mas foram atrás.

Quiseram pegar.

Emboscaram.

Não o pegaram.

Lutou.

Minerou.

Vingou.

Até matou.

Foi atrás da pedra de cada dia.

Outros faiqueiros vieram e juntos puderam fazer nascer da terra os sustentos.

— Compramos a alforria de muitos de nós. Mas ninguém quis dar a minha … meu senhor morreu, que-jesus-tenha-a-sua-alma!

O desatento médico atestou que ele poderia até ficar bom.

E o correto padre finalizou: se confessar.

João falou que queria voltar caminhar sem olhar para os lados.

Beber sua aguardente.

Dormir com os dois olhos fechados.

Vestir sapatos.

Namorar uma madalena qualquer.

O corpo curvou.

Engasgou com a baba.

Sangrou mais.

Ficou de quatro no chão.

— As pedras foram colocadas no seio da terra por Deus por isso pertencem a todos …

O experimentado padre tentou consolá-lo.

O médico achou que tinha ouvido um trovão.

João deu um sorriso de canto de boca. Quase ninguém viu.

Disse que não tinha medo de morrer.

Que até será bom um descanso.

Não quer mais temer que um irmão de lavra, calejado como ele, sofrido e com bicho-de-pé, caia em tentação e o denuncie por um saco de farinha.

— Liberdade só posso esperar…

Falou que vista não encontrava mais os veios brilhantes.

Afirmou que não conseguia mais sentir o cheiro de uma bela pedra.

Balbuciou que os ouvidos não davam mais o gosto da manhã.

O compadecido padre achou que viu o moribundo cantar.

O sábio médico pensou na negrinha da casa dele.

Queria descansar.

Rezou pelo Frei das Neves.

Pela mãe.

Por sua alma.

Morreu …

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Sobre Plínio Camillo

Nasci em 26 de novembro de 1960. Aos três anos descobri que as letras tinham significados. Aos cinco, a interrogação. Aos nove, não era sintético. Aos 12, quis ser espacial. Aos 15, conquistei a exclamação. Aos 17 vi os morfemas. Aos 20 estava no palco. Aos 22 me vi como um advérbio. Aos 25 desenredei a Lingüística. Aos 27 redescobri as reticências. Aos 30, a juventude. Aos 35 recebi o maior presente: Beatriz Camillo, aquela que me trouxe a felicidade. Aos 40 desvendei uma ligeira maturidade. Aos 41 voltei para Sampa!!!. Aos 45, recebi o prazer de viver em companhia. Aos 50 anos, uso óculos até para atender telefone. Hoje: escrevo.

  1. E aí, Plínio, cada vez melhor!

  2. Pôxa Plínio, me encantei e me emocionei com a força de João Criolo. Lindo texto!

  3. Luiz A. Bonini

    Viva Plínio !!! João Criolo balbuciou momentos de paz e seguiu pra lutar em outros caminhos, quiçá por outros objetivos em horizontes maiores. E nós ficamos aqui, no cavaco das subjetividades: por que isso tudo aconteceu, se o negro assegurou que ” as pedras foram colocadas no seio da terra por Deus por isso pertencem a todos …”. Só não contaram isso pro Rei.

  4. Daniela Batista

    um lutador com uma vida bem sofrida , guerreiro até o fim .

  5. Linda forma de contar uma história: narrativa preciosa como as pedras.

  6. Beleza de sentir nosso viver, Plinio Camilo, você “conhece” e sabe emocionar.

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