Laranjeira

Lucy Autrey Wilson

Lucy Autrey Wilson

Aquela era realmente uma árvore incrível. Frutos viçosos no tamanho e no desejo que causavam em quem os olhasse. Rômulo e Camilo os olhavam, sedentos, ressequidos da longa caminhada pelo deserto do sertão. Dentro deles não havia somente sede e fome, havia também cansaço e raiva. Raiva um pelo outro, pelo destino que haviam se causado, pela briga das famílias que se interpôs entre ambos, pela garantia da honra, da vingança de um e da vingança da vingança de outro. Naquela laranjeira brotou muito mais do que laranjas gordas de sumo, porque brotou a disputa de Camilo e Rômulo. O que os separava de um futuro em comum: o medo. Medo não somente do incerto, mas de tudo que o rondava, o puro e simples medo de ter medo.

As laranjas, para Rômulo, eram o paraíso inalcançável, o gozo interrompido, o medo de altura. Salivava apenas ao pensar nas gotas que escorreriam de sua boca para seus cotovelos, e no segundo em que fechou os olhos para sonhar, Camilo não titubeou. Ao abri-los novamente, Rômulo sentiu no peito a maior das vinganças: o outro detinha o poder, a vida, o futuro nas mãos farelentas de terra vermelha, e não só detinha o próprio futuro, como também o de Rômulo. Mais do que odiá-lo pela inveja, odiava por saber que jamais conseguiria chegar onde Camilo estava, dependeria dele e da misericórdia que sabia não existir.  Corpo e a mente inquietos como as pernas, que rodeavam o tronco da árvore como o cão que ladra uma presa. Inútil seria, mas talvez adiantasse o suplício e o fizesse morrer logo de sede, de fome e de raiva.

– Vá! Então faça bom proveito!

As laranjas para Camilo, porém, de lá de baixo também lhe aparentavam expectativa de vida, esperança de ir além, afinal seu corpo estava na mesma medida fraco e sedento e por isso não hesitou em abandonar Rômulo à sua própria sorte. Mas ainda havia o sertão e o sertão, visto por sobre os galhos, era tão imenso que cabia um oásis, um maldito oásis cheio de água, infinito por todos os lados. E aquelas laranjas que Rômulo tanto desejava se transformaram, assim, no seu inferno ou na sua salvação. Então o outro é quem detinha o poder, a vida, o futuro nas mãos farelentas de terra vermelha, e não só detinha o próprio futuro, como também o de Camilo. Mais do que odiá-lo pela inveja, odiava por saber que jamais conseguiria chegar onde Rômulo chegaria, dependeria dele e da misericórdia que sabia não existir.  Corpo e a mente inquietos como os braços, que arrancavam as laranjas mais próximas como um mercador que troca freneticamente seus bens pelos bens de outros. Jogou uma, duas, três, quatro laranjas ao pé de Rômulo.

– Aí está! Faça, você também, bom proveito.

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Sobre Bia Bernardi

Bia Bernardi é escritora e gosta de ler livros de temas diversos, adora música, pra dançar ou só ouvir, e gosta de estar com quem gosta.

  1. Estou fazendo … belo texto

  2. Texto delicioso feito sumo da laranja fresquinha! Parabéns Bia!

  3. Desespero e fome brotando no texto.

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