Prazer Desconhecer

Fotografia: Mateus Morais

Fotografia: Mateus Morais

Detesto apresentações. Quase sempre falto na primeira aula só para não participar das apresentações. Mas hoje eu vim. Vacilo. Logo vai ser minha vez. Mal consigo ouvir o que os outros falam, fico pensando no que vou falar, se vão perguntar alguma coisa, o que vão pensar de mim.

Nome, profissão, origem, moradia… O que estas todas perguntas tem a ver com a aula? São rótulos que as pessoas botam na gente, e nos reduzem. Médico, advogado, engenheiro, domador de leões. Todos classificados e colocados em prateleiras, como num supermercado. Depois as pessoas só enxergam essa embalagem.

Outra pessoa já começou a falar, e não me lembro o que disse a anterior. Eu estava bem aqui, mas não ouvi, porque estava preocupado comigo mesmo. Será que alguém vai ouvir o que vou dizer? Talvez todos estejam tão preocupados quanto eu, e ninguém escuta o que outro diz. No fundo, todo mundo quer um lugar de destaque na prateleira. Cada um em seu canto, inventando uma versão interessante de si mesmo. Eu nem teria motivo pra me preocupar.

Detesto as primeiras aulas. Um tédio, uma perda de tempo. Ninguém liga mesmo. Bastava cada um escrever sua apresentação numa folha, e depois rasgar. Pronto, cumprida a formalidade, passaríamos pra aula. Tudo bem que a ideia é criar relações entre os participantes, gerar um ambiente de comunidade, essas coisas. Mas na prática não funciona. Isso acontece em conversas informais, na hora do café, na chegada, na saída.

Outra pessoa começou a falar. Está chegando a minha vez. Por que me preocupo tanto, se a maioria, como eu, não está nem aí? A única pessoa que escuta as apresentações deve ser a primeira, porque já se apresentou então fica livre para ouvir os seguintes.

Minha vez. A voz não vem. Vacila. Inferno. Agora vai. Falo rápido, pra me desvencilhar de uma vez. Como? Articulei mal as palavras. Ninguém ouviu o que eu disse, me pedem para repetir. Respiro fundo e falo devagar e mais alto:

— Norberto, domador de leões.

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Sobre Rogério Guimarães

Rogério Guimarães nasceu em Santo Antônio da Platina (PR). Gosta de desenhar e tocar violão. Vegetariano não praticante, curte esportes radicais como yoga e tai chi chuan.Busca inspiração para escrever em Pasárgada, Shambhala e na paisagem cosmopaulistana. Participou da antologia de contos Abigail, publicada pela Editora Terracota, e do ebook Geração em 140 Caracteres, editada pela Geração Editorial. Seus próximos livros serão lançados em 2012, se o mundo não acabar.

  1. Maravilha! Isso me fez lembrar de meu primeiro dia non curso de criacao. Tambem acho um saco tudo isso. Mas e necessario.

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