Unua

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Uma tarde de tons quentes inaugurou meu primeiro dia de escola, o esfacelado ano de 1979 sobrevoando sob meus olhos na foto postada no Facebook, meu irmão o culpado, o flashback trazendo prédio pintado de amarelo-gema, Maverick laranja de meu pai fazendo ponta no cenário, eu metida em macacão vermelho – teria nascido aqui minha dedicação à cor? – minha mãe em figurino de quem estreava nos trinta anos, o jeans-blusa-listrada-amarelo-e-branco-cinto-amarelo lembrando que ela era mãe, mas também duplava como mulher.

Lembro vagamente da Escola Estadual de 1º Grau Incompleto Monte das Tabocas, o educandário me acolhendo durante apenas um dia, o curto período resultado de uma orquestração familiar em prol da otimização da rotina. Era preciso que meu irmão e eu estudássemos no mesmo turno, o colégio de freiras demorando a responder a demanda, a época exigia rigor de idade, meu irmão devendo dirigir-se ao jardim de infância, eu à pré-escola, a família solicitando o cumprimento do dever na mesma turma, e enquanto a decisão não se resolvia, cabia garantir o ano escolar para o membro mais velho da prole.

Não recordo o nome da professora, e dos colegas não ficou apelido, defeito, simpatia, nem mesmo lembrança borrada, a experiência me deixando praticamente zerada não fosse a prática universal de todo o primeiro dia de aula: portar nome em crachá improvisado, papel e caneta, obra da professora, o conjunto exibido no peito gritando ao mundo quantas e quais letras definiam o ser que tentava esconder-se debaixo do diminuto retângulo.

No entanto, no meu primeiro dia na Escola Estadual de 1º Grau Incompleto Monte das Tabocas, mais que identificação, a prática exigiu inovação. E foi assim que a professora, talvez com a ignorância de quem via na atitude um vanguardismo pedagógico, talvez com a experiência de quem percebia na ideia a modalidade certa para evitar que o crachá fosse perdido ou amassado – ah, terríveis crianças, destroem tudo – transformou o conjunto em uma espécie de plaquinha, cada lado do retângulo preso por uma ponta de barbante, meu nome centralizado no peito, o papel rígido rebolando para lá e para cá.

Não sei por que cargas d’água, mas minha moral de criança ofendeu-se irremediavelmente com o apetrecho. Recordo que mal me mexia, a fim de evitar que a plaquinha se movesse, e minha única tentativa de extinguir o desconforto de sentir-se cachorro portando coleira foi reprimido pela professora, minha cara de frustração pouco servindo de argumento,é assim, nunca fui muito boa em exprimir sentimentos por onde geralmente eles se manifestam, a boca substituída pela mão assim que aprendi a ler,  escrever e perceber que sentimento deve buscar existência de pássaro, não nasceu para ficar engaiolado.

A notícia de que não voltaria a estudar na Escola Estadual de 1º Grau Incompleto Monte das Tabocas me recepcionou no caminho de volta ao lar, o alívio mais companheiro que a lancheira vazia, mas nem Maverick nem minha casa, pai ou mãe saberiam, naquele fim de dia, ou nos seguintes, que o custo de transformar alguém em ser letrado inclui percalços omitidos, o momento só confidenciado muito mais tarde, quando o algarismo dois já identificava a dezena a que pertencia minha idade e qualquer sentimento recolhido desta lembrança parecia ter pertencido a outra pessoa.

Trauma foi o que não restou da experiência, todo o conjunto oficial de construção do conhecimento – escola, professores, livros – paixão assumida sem freio nos anos seguintes, minha transformação em professora em parte consequência disso. E se durante meus anos docentes jamais obriguei aluno a assumir crachá com nome no peito – memorizar cada menino e menina no início do ano recorrendo a outros expedientes uma questão de honra -, e se crachás e eu nunca tivemos muita proximidade – as reduzidas passagens profissionais em que o uso da tarjeta era obrigatório jamais transformando o objeto em acessório orgulhosamente ostentoso no pescoço – talvez seja porque a experiência não foi processada como mágoa, mas sim como ponto de partida, base de lançamento, início-fim-meio-e-toda-as-outras-partes, para o caleidoscópio de vivências que define as excentricidades do que sou, não sou, penso que sou.

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Sobre Setúbal

Setúbal é Luciana Iser Setúbal, nascida em 6 de março de 1974, em Porto Alegre (RS). Professora e redatora/revisora publicitária por formação e experiência, é leitora e escrevinhadora desde a mais imatura idade. Culpa do pai, jornalista, que sempre a incentivou a ler. Deu nisso, uma metida a besta que assume não ter carteira de motorista nem saber nadar, mas que se orgulha de escrever (acredita) muito bem. E que agora, escreve aqui: lsetubal.wordpress.com.

  1. Belo texto!!! Me fez regressar ao meu primeiro dia na escola também.

  2. segmund

    parabéns, mais uma vez ,lulú, sou seu fã de carteirinha

  3. Você está virando uma bela memorialista, parabéns!

  4. Aline Viana

    Adorei a crônica, moça! 😀

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