A casa do poeta

Foto: Boris Kyurkchiev

Quando se escuta o dobre

Amplíssimo e funéreo,

Sinistro e compassado,

Rolar pela mansão gloriosa do mistério,

Assim com um soluço aflito, estrangulado.

(Cruz e Souza)

Desde o primeiro dia, ele sabia que havia feito uma péssima escolha. E nem por isso voltou atrás. “Superstição boba”, dizia a mulher. Pelo sim, pelo não, era com cautela que caminhava naquela noite. Assobiava uma tola canção de amor e se esforçava para aparentar toda a calma que não tinha. Entre dois blocos de apartamento, encontrou o mesmo casal da véspera. Um passando a mão no outro. “Sem-vergonheira”, resmungou. Teve que interromper e falar com toda a educação possível que aquele não era lugar para fazer esse tipo de coisa, que eles entendessem o lado dele e tudo mais. Os dois concordaram e foram embora devagar, rindo e brincando, totalmente alheios ao medo que estava prestes a paralisá-lo.

Digo isso porque em breve ele alcançaria o casarão – aquele estranho casarão que estava em pé há mais de um século no meio de vinte blocos de prédios. No caminho até ele, quase não havia barulho ao redor. De vez em quando chegava um carro, estacionava, e dele saiam pessoas que entravam em suas casas. Dentro delas, desejavam apenas ter uma noite tranquila. Sua missão não era outra senão garantir que isso realmente acontecesse. “Se pelo menos fosse de dia…”, lamentou. E passou então por aquele pequeno parquinho que durante o dia atraia algumas crianças barulhentas. Era um parquinho feio, e isso ele notou logo no primeiro dia. “O cara desce do escorregador e pega tétano”, analisou.

Seria o caso de alguém falar com o síndico. Um homem alto, meio velho, e que vivia sem mulher. Jeito de quem consegue levar os outros na conversa. Provavelmente um homem sujo. Ainda por cima teve a péssima ideia de instalar a administração do condomínio naquele casarão. Vai ver era por isso mesmo que aquilo não ia pra frente. A maioria nem pagava em dia o condomínio. Dívidas gigantescas se acumulavam. E nem adiantava pregar no mural um punhado de avisos sobre a situação. Bem ao lado do condomínio havia um shopping center que sofria as mesmas coisas. Até que um dia faliu. E o motivo de nada progredir naquele lugar estava agora bem à sua frente.

Patrimônio histórico. Essa foi a desculpa que arranjaram para explicar a permanência daquela casa velha dentro do condomínio. A explicação só satisfazia os mais céticos. Não era o seu caso. Ele conhecia a história, que vinha ainda do tempo do seu avô, talvez até do bisavô. Ali morava um antigo poeta, provavelmente simbolista. E esse poeta queria se casar, e já tinha inclusive uma noiva prometida a ele. Mas a moça não gostava do poeta e não queria casamento nenhum. Mesmo assim, ele foi marcado. Na noite de núpcias, os dois se desentenderam. E na manhã seguinte, o próprio poeta encontrou a noiva morta no casarão – enforcada ou com um tiro no olho (as fontes divergem neste ponto).

O poeta, que não podia fazer outra coisa, fez poesia. Tombaste ali, silenciosa, sobre o sofá, no abandono, pálido rosa de um longo sono de que ninguém te acordará. A noiva, por sua vez, passou a dedicar toda a sua eternidade a amaldiçoar o casarão, e por consequência todo o condomínio que seria levantado ao seu redor, e por extensão até os shoppings centers construídos nas proximidades. Vez ou outra, ela podia inclusive ser vista dentro do casarão. Ainda menino lembro de ouvir histórias de gente que a havia encontrado. Suas aparições eram sempre acompanhadas de acontecimentos inexplicáveis que assustavam e marcavam terrivelmente a vida de vigias noturnos como ele.

E era por isso que ninguém se atrevia a demolir o casarão. Agora ele subia a pequena escadaria que levava até ele. Estava iluminado. Alguém da administração certamente havia esquecido uma luz acesa, e era sua a obrigação de apagá-la. Teve vontade de correr. Olhou ao redor e se deu conta de que ninguém notaria a sua fraqueza. Mas por algum estranho movimento interior, que atribuo ao próprio medo de perder o emprego, ele continuou a caminhar em direção à porta. Colocou a chave, girou a maçaneta e tentou alcançar o interruptor sem que fosse preciso entrar. Não conseguiu. Hesitou por alguns instantes, novamente lhe ocorreu a ideia da fuga, mas por fim se decidiu e colocou um pé dentro do casarão.

Como costuma acontecer, o assoalho de madeira rangeu. Apagou as luzes e já se preparava para sair quando ouviu passos próximos a ele. Na sequência, uma porta bateu. “Quem está aí?”, gritou. E houve silêncio. Olhou então para um retrato do poeta simbolista na parede. E foi como se o ouvisse falar: “Nesse risonho lar, a dor caiu neste momento”. Ele ainda se lembraria dessas palavras muito tempo depois, mas sem ter certeza se de fato ouviu ou se apenas veio à memória um verso antigo e esquecido. Naquela noite, as palavras foram tão reais como aquela porta em que ele se encostava, paralisado que ficou diante da visão de uma noiva que se enforcava e depois renascia para dar um tiro em seu próprio olho.

O homem então corre. Corre mais que uma vela, mais depressa, ainda mais depressa do que o vento. E chega até o porteiro do prédio, que se assusta com sua corrida e exaltação. O porteiro ouve a história e decide averiguar por conta própria. Não encontra absolutamente nada de anormal dentro do casarão. E sentencia: “Você estava impressionado”. Também foi a essa conclusão que chegou o síndico, um homem cético e rude. É bem possível que tenha pensado em dispensar o guardião. Mas por algum motivo que ainda não estava claro, deixou que permanecesse. E ouviu com impaciência os pedidos desesperados para que nunca mais esquecessem a luz da casa acesa.

Depois disso, o homem tomou a firme decisão de nunca mais entrar na casa. E era coisa digna de se ver como sequer se aproximava muito dela durante as suas rondas. Seu medo e suas histórias se tornaram célebres. Em pouco tempo, já era motivo de chacota em toda a vizinhança. A mulher, mais madura e com os pés bem fincados neste mundo, não perdia a oportunidade de censurá-lo: “Casei com um homem bobo e medroso”. Com o tempo, ele foi desistindo de convencer os outros daquilo que vira. Mas todas as noites caminhava entre os prédios com o coração aos pulos, imaginando que a noiva poderia persegui-lo inclusive fora do casarão, vigiado apenas de longe, bem de longe.

O medo se tornou tão presente em sua vida que decidiu buscar ajuda psicológica. E sem avisar a mulher, que provavelmente acharia aquilo tudo um exagero. Não foram necessárias muitas sessões para que um dia ele decidisse tentar se aproximar outra vez do casarão. Na noite escolhida, subiu então a escadaria que levava até a sede da administração. Lutando terrivelmente contra a vontade de fugir, conseguiu se aproximar da porta, e estava prestes a abri-la, como fizera da outra vez, quando escutou um estranho barulho vindo de dentro. “É a noiva”, pensou. “E o poeta deve estar junto”. Achou isso porque, de fato, o barulho e as vozes faziam crer que havia mais de uma pessoa no casarão.

Ao invés de entrar, decidiu caminhar ao longo do casa, na esperança de que nem a noiva e nem o poeta dessem pela sua presença. Quando chegou em uma das janelas, decidiu arriscar e olhar para dentro. Teve então uma das piores visões da sua vida, e que ficaria marcada em sua mente de forma mais intensa do que a aparição da noiva. Em cima do sofá da administração, logo embaixo do retrato do poeta simbolista, havia um homem. Um homem cético e rude. Um homem alto, meio velho, e que vivia sem mulher. Provavelmente um homem sujo. Embaixo dele, arfando de prazer, uma mulher, mais madura e com os pés bem fincados neste mundo.

Henrique Fendrich nasceu em São Bento do Sul/SC, formou-se jornalista em Curitiba e atualmente mora em Brasília. Escreve crônicas desde 2004. Publicou recentemente o livro de crônicas “Brasília quando perto“, pelo Clube de Autores. Mantém um blog específico sobre o gênero da crônica, chamado “Rubem“, e idealizou um blog com 7 cronistas, o “Vida a Sete Chaves”, no qual escreve às sextas-feitas. No mesmo dia sai uma crônica sua no jornal “Evolução“, de São Bento do Sul. Faz ainda um artigo semanal de história para o “Folha do Norte”, da mesma cidade. Lê crônica, escreve crônica, estuda crônica, mas vez ou outra decide fazer algumas brincadeiras em outros gêneros. 

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Um Comentário

  1. Aline Viana

    hahahahaha Pois é, sempre dizem que os traumas e os sonhos ruins nos protegem de enfrentar coisas para as quais não estamos prontos. Conviver com os medos não é de todo ruim 😛

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