Por um triz

Da mesa de dois lugares, ela só ocupava um. Do lado de fora, no canto da calçada, ela assistia ao vem e vai do fim de tarde. Olhou no celular. Faltava exatamente dez para as cinco. Um vento pequeno passou e desalinhou o cabelo. Ali, naquela hora, ela se sentiu quase feliz. E quase feliz era muita coisa depois daqueles últimos dias em que um desânimo, um desalento bateu forte, ameaçando arrancar uma ponta do seu coração.

Se não fosse o quase, a vida dela, naquele fim de tarde, seria perfeita, um ideal a ser invejado. Mas a ferrar tudo, tinha que existir aquele quase. No papel, apenas cinco letras, mas um fosso difícil de escalar na geografia entre o sonho e a realidade.

Bebeu mais um gole de chope, colocou aquele pedaço de franja desarrumada no lugar, só porque o cabelo esfregando cócegas no nariz se transformou numa ameaça de espirro, aliás, de vários espirros. Vendo o sol fazer a sua cor preferida de fim de tarde, tarde de ventos pequenos, ela percebeu que a vida também podia ser delicada e, por vezes, ou pelo menos daquela vez, ela estava quase feliz. E poucos podem se dar ao luxo de ser quase feliz.

Viu o carteiro passar, o homem de boné esgarçado passar, o rapaz de terno de corte barato passar. A moça de salto alto passou rápido e quase virou o pé ao cruzar a rua. O moço se fazia chique ao celular, andando de vagar, de óculos escuros quando o sol quase não existia mais. Ela pensou em Drummond. Não era só numa cidadezinha qualquer que essa vida podia ser besta, meu Deus. Tomou mais um gole de chope e pensou no seu momento quase feliz e riu quando a ‘perua’ de blusa de oncinha, do outro lado da rua, escorregou na calçada.

A nossa salvação pode estar nos detalhes, como naquele vento que passou pequeno. Foi assim também numa outra tarde, ainda na adolescência, quando um bolo de cenoura com cobertura de chocolate molhado salvou a sua vida. Na época do coração adolescente, quando o amor é demais, a raiva é demais, a alegria é demais e também se pode ser triste demais. Naquela outra tarde, deitada no quarto, quando, pela primeira vez, sentiu o oco da vida, o cheiro quente do bolo que saia do forno salvou a sua vida.

As vezes é pelo detalhe que vale a pena a viver. Pelo bolo de cenoura com cobertura de chocolate molhado, por exemplo, valia. Pela farofa fria, cheia de bacon com tomate e pimenta a gosto, que a avó fazia todo domingo, também valia. Era bom viver também pelos treinos de volei, pelas risadas que se dava com o Dudu, o amigo mais engraçado da escola. E pra ver também o Flamengo perder. Ah, como valia. Só não era totalmente feliz por um triz. Rimas também agregam valor ao dia.

– Mais um chope? – chegou perguntando o garçom.

– É… mais um. E traz também uma porção de bolinho de mandioca, por favor. Ah, e o molho de pimenta… A mais forte.

E, então, assim, com o chope e a porção de bolinho de mandioca, ela saia da condição de quase para ser totalmente feliz.

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Sobre sandrareginasantos

Nasceu em Londrina

  1. Que belo recorte do dia a dia Sandra! Adoro esses momentos que sempre por um triz, nos remete a momentos inesquecíveis!

  2. Sandra, seu melhor trabalho!!! Parabéns!!!

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