Caput

6581702243_347976533c_b

Se o cheiro é memória pesada, para mim não é a perfumaria a culpada, os odores da comida são quem mantém a balança sempre em desequilíbrio, a cozinha o espaço que acende diversas imagens de minha infância com meu pai.

Eram suas mãos que picavam a cebola, o alho, a salsa, o cheiro verde. As nossas eram chamadas, vez em quando, a remover a casca do tomate, o garfo encostado na boca acesa do fogão a técnica, a retirada da pele através do calor ensinada com prazer, o procedimento supervisionado atentamente por ele, as coordenadas para aproximar mais ou menos o legume da chama repassadas com a precisão de quem está acostumado a lâminas e cortes, pontos de cozimento e fritura.

Foi ele que nos introduziu no hábito de batizar a salada com azeite de oliva, salpicar de mostarda os sanduíches e o misto quente, pingar a pimenta no prato de feijão, experimentar e gostar de agrião, rúcula, azeitona, o amargo um sabor incluído na rotina desde cedo, o “paladar de infância” que contamina os adultos de hoje uma realidade que nunca nos atingiu, sua missão de nos evangelizar cedo em todos os sabores que a língua é capaz de catalogar executada com sucesso nos poucos anos que convivemos juntos.

Mas ele também não esquecia que éramos crianças. E se na época pratos congelados eram uma realidade inexistente, os nuggets e afins da infância atual pertencendo ao futuro imaginado pela ficção científica, era com bacon que ele atiçava o apetite para a refeição principal, os pedacinhos gordurosos e crocantes sempre fritos no azeite que refogaria o alho e a cebola, os dois contaminando os pedaços de carne que, juntos, dariam origem a um carreteiro ou galinhada.

Infelizmente, seu esforço de nos introduzir em pratos como mocotó e rabada não vingaram – e até hoje lembro da expressão de vômito do meu irmão quando os dois, meu pai e minha mãe, nessas brincadeiras de adulto que hoje entendo com os lábios em sorriso, comunicaram qual parte da vaca ele havia comido –  e a vitamina de abacate foi outra vítima de nosso nem tão democrático paladar. Mas ele tentava, e seus acertos em nos fazer provar o que fugia do trivial – o fígado era algo que não figurava entre suas opções de prato. Seria porque ele não gostava? – nos tornaram menos maricas para as coisas de forno e fogão. Ao mesmo tempo, nossa familiaridade com ingredientes diversos não impediu cenas antológicas, como a do meu irmão abrindo a geladeira e perguntando o que velas faziam dentro de um vidro, o palmito um ingrediente que nos despertou para questões como armazenamento e procedência. E se entre as cenas passadas entre pia, geladeira e fogão já não bastando ser dele a missão de protagonizar o jantar, a pós-refeição também não fugia de sua batuta, aí incluída a louça para lavar, as panelas para arear, e o cuidado em tirar o cinza da palha de aço encravado nas unhas com uma escovinha, a cozinha sob o seu comando ensinando outras verdades sobre os papeis de homem e de mulher.

Não sei por qual motivo, certa noite me zanguei com ele. Não sei se me recusei a ajudá-lo na refeição que preparava. Não sei se era a louça a secar e eu me desviei da obrigação. Não sei se era questão de escola, mas duvido, sempre fui boa aluna, e não seriam minhas notas ou a lição de casa o que ocasionaria a nossa “briga”. Mas me marcou o local – a cozinha, seu território – e as palavras – essas chantagens emocionais que os adultos usam como último recurso para amansar o brio infantil, e que se tornam marca indelével, ferro em brasa escurecendo a pele para sempre – cuja previsão me atingiria com a força da realidade logo em breve: “um dia o velhinho vai morrer e tu vai lembrar”.

Foi hoje, picando a cebola e o alho, perfumando a carne com alecrim, o limão marinando as fibras macias do porco, que o cheiro, senhor de nossas memórias, me fez lembrar destas palavras, do ritual ao que meu pai, chef de espírito, se entregava todas as noites, no cozinhar para quem se ama mais que simples rotina ou  tarefa pesada, a cozinha o afeto em seu ponto exato de cocção, a receita aprendida e apreendida agora já misturada à minha essência, replicada junto a família, amigos e amores. Sim, pai, eu sempre vou lembrar.

Imagem: Lucas Colebrusco

Anúncios

Sobre Setúbal

Setúbal é Luciana Iser Setúbal, nascida em 6 de março de 1974, em Porto Alegre (RS). Professora e redatora/revisora publicitária por formação e experiência, é leitora e escrevinhadora desde a mais imatura idade. Culpa do pai, jornalista, que sempre a incentivou a ler. Deu nisso, uma metida a besta que assume não ter carteira de motorista nem saber nadar, mas que se orgulha de escrever (acredita) muito bem. E que agora, escreve aqui: lsetubal.wordpress.com.

  1. Putz Lú!! Que texto bárbaro! Me fez lembrar de meu pai que também adorava uma cozinha. Confesso aqui sem vergonha nenhuma que lágrimas correram por meu rosto. Saudade doída mas boa!

  2. Crônica? Fragmento de memória? Mas classificar pra que? Esse texto é leve, bem trabalhado, universal
    e emociona! Um dos teus melhores, Setúbal, parabéns querida!

  3. Ricardo Tronquini

    Parabéns Lu. Emocionante.
    Baixou um tiquinho de Proust em ti.

  4. Cristiana

    Amiga, adorei teu texto.Impossível não viajar também por cheiros, sabores e memórias de infância…Bjs!Parabéns!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: