Terra sem teto

Imagem: Jacek Yerka

Imagem: Jacek Yerka

O teto ficava no fundo. Não o teto, mas o céu, no lugar que seria do horizonte. E a entrada, ficava pendurada à esquerda, mas nada caía porque tudo o mais era chão. E ter tanto chão sem parede era um fenômeno novo para uma gata  como Denise.

Ela podia erguer-se sobre as duas patas e tocar novamente um chão e não o alto ou os lados. Ou ir parar num galho alto, sem com isso haver necessidade de se chamar os bombeiros porque ela continuava, tecnicamente, rente ao solo.  Se desse um salto, seria pequeno a ponto de mal conseguir alongar as patas antes de tocar a grama.

Para chegar a essa terra sem teto era preciso atravessar um portão alto e antigo.  À direita, havia via uma trilha no jardim, por onde Denise alcançou o lago. Um lago tão profundo que era escuro e refletia o universo e não, o que seria mais lógico, o chão, que era também o teto daquele lugar.

Ela não se lembrava como chegou ali. Apenas foi andando como qualquer gata de rua por aí. Já andara tanto que não se recordava de onde morava, se é que algum dia morou em casa de gente, com dono e essas coisas. E quando já estava bem no meio daquele jardim suspenso foi ela que percebeu que estava indo atrás do Porpeta, o gato preto da dona da Ana, da padaria.

O Porpeta atravessou por entre as grades do portão uns minutos antes e foi assim que ela chegara ali. Estava tão difícil lembrar e havia acontecido há tão pouco tempo! Como podia ser isso? Ela podia ver o gato do outro lado, no portão de saída, admirando a vista. Um céu janeloso, de um azul apagado como uma calça jeans bem desbotada. E nem sinal de sol, apesar do dia claro.

O engraçado era o silêncio.  O lugar tinha  um cachorro dormindo, algumas joaninhas e caramujos, uma fonte, um lago, um relógio mudo sobre uma cômoda entre as árvores, uma mesa de chá posta e nenhum som. Nem uma palavra ou risada. Nem o sibilar do vento.  Nenhum passarinho naquelas árvores todas. Denise não sabia identificar o que era, apenas sentia qualquer coisa estranha no ar. Um vazio… Nem uma borboleta para ela correr atrás? Seria culpa de alguma força maligna ou de alguma substância venenosa? Ela não iria gastar uma  das vidas pra saber.

Denise foi voltando de mansinho para a entrada, sem fazer barulho daquele jeito que só os gatos e as mães conseguem pisar. Mas quando chegou ao portão, não conseguiu ir embora. E não era só porque não sabia como voltar.  Já que chegou até aquele ali, resolver o mistério se tornara questão de honra: nem que tivesse que ficar no jardim pra sempre, ela ainda iria descobrir o que Porpeta tanto olhava por aquela imensidão feito janela. Só que em segurança: de binóculos e da porta pra fora.

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Sobre Aline Viana

Aline Viana nasceu em São Paulo, em 1981, mas prefere que não espalhem a que safra pertence. É formada em jornalismo. Cansada de tanto quem, o quê, quando, onde, como e porque resolveu entrar em um curso de crônicas. Foi um santo remédio para recuperar a saúde de seus textos. Se o diagnóstico está correto, você pode checar nos blogs: cronicasdas12.blogspot.com e semanalmente no vidasetechaves.wordpress.com . Novos pareceres são sempre bem-vindos.

  1. Aline assim como a gata Denise, também fiquei curiosa pra descobrir!! Porpeta! Que tanto olha menino! Muito bom!

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